Acção de Formação a Distância PROF2000
AF-18 - 2003

página alojada no Programa Prof2000

Círculo de Estudos
Episódios da História da Matemática na Antiga Grécia:
Trissecção do Ângulo e Duplicação do Cubo

Formando
António Manuel Marques do Amaral
 E-mail: amma@mail.prof2000.pt
    
Página pessoal: http://www.prof2000.pt/users/amma



Resolução de Trabalho 1

Voltar a Trabalhos

Euclides e Elementos I.1
Trabalho1

|Euclides de Alexandria| |Elementos I.1| |Apêndice|

 

Euclides de Alexandria

 

A Vida

 

Como no caso de outros grandes matemáticos Gregos, também para Euclides apenas temos escassos conhecimentos da sua vida e personalidade. A maioria do que sabemos está contido numa passagem de Proclo (411-485 d.C.), que se lhe refere, como segue:

Não muito mais novo do que estes (discípulos de Platão) é Euclides, que une os Elementos, coligindo muitos teoremas de Eudoxo (408-355 a.C.) (Eudoxus), aperfeiçoando muitos de Teeteto (417-369 a.C.) (Theaetetus), e trazendo também à demonstração irrefutável as coisas que foram provadas somente um tanto frouxamente por seus antecessores. Este homem viveu na época do primeiro Ptolomeu (323-285 a.C.) (Ptolemy). Arquimedes (287-212 a.C.) (Archimedes), que veio imediatamente depois do primeiro [Ptolomeu], faz menção de Euclides: e, mais, dizem que esse Ptolomeu  lhe perguntou uma vez se havia na geometria uma qualquer maneira mais curta do que aquela dos elementos, e ele respondeu que não havia nenhuma estrada real para a geometria. É então mais recente do que os discípulos de Platão, mas mais antigo do que Eratóstenes (276-194 a.C,) (Eratosthenes) e Arquimedes; sendo estes últimos contemporâneos, como Eratóstenes disse algures.

Esta passagem mostra que mesmo Proclo não teve conhecimento directo do lugar natal de Euclides ou da data de seu nascimento ou morte. Conclui por dedução. Como Arquimedes viveu imediatamente depois do primeiro Ptolomeu, e Arquimedes  menciona Euclides, porquanto há uma anedota entre algum Ptolomeu e Euclides, consequentemente Euclides viveu na época do primeiro Ptolomeu.

Podemos então inferir de Proclo que Euclides viveu no período compreendido entre a época dos primeiros discípulos de Platão (427-347 a.C.) e o tempo de Arquimedes. Ora, Platão morreu em 347 a.C., Arquimedes viveu entre 287-212 a.C., Eratóstenes por volta de 284-204 a.C, assim Euclides deve ter vivido por volta de 300 a.C., cuja data está em concordância com o facto de que Ptolomeu reinou de 306 a 283 a.C.

O mais provável é que Euclides tenha feito a sua aprendizagem matemática em Atenas com os discípulos de Platão; a maioria dos geómetras que o poderiam ter ensinado eram dessa escola, e ela ficava em Atenas, e ainda porque os escritores mais velhos dos elementos, e os outros matemáticos de cujos trabalhos os Elementos de Euclides dependem, aí viveram e ensinaram.

Uma coisa contudo é certa, nomeadamente que Euclides ensinou e fundou uma escola em Alexandria. Isto fica claro numa nota de Papo (290-350 d.C.) sobre Apolónio (262-190 a.C.): "ele passou um longo tempo com os discípulos de Euclides em Alexandria, e foi então que adquiriu o tal hábito do pensamento científico".

Fonte: http://www.perseus.tufts.edu/cgi-bin/ptext?doc=Perseus%3Atext%3A1999.01.0086

 

Apesar da polémica sobre a vida de Euclides, o reconhecimento da influência dessa personalidade na nossa cultura tem merecido, ao longo dos tempos, a atenção de diversos artistas e povos:

 

Euclid in Verse - A prova de Elementos I.1 em verso, por Samuel Taylor Coleridge.



Emitido pelas Ilhas Maldivas,
em 10 de Janeiro de 1988
Fonte

 

   

 


Está longe ainda o fim da polémica sobre a vida de Euclides. Nesta matéria, Itard (1902-1979, professor de matemática e historiador da matemática) apresenta três hipóteses possíveis.

  • Euclides foi uma personagem histórica que escreveu os Elementos e os outros trabalhos a ele atribuídos;

  • Euclides era o líder de uma equipa de matemáticos que trabalhava em Alexandria. Contribuíram todos na escrita das 'obras completas de Euclides', continuando mesmo a escrever livros sob o nome de Euclides após sua morte;

  • Euclides não foi uma personagem histórica. As 'obras completas de Euclides' foram escritas por uma equipa de matemáticos em Alexandria, que escolheu o nome Euclides a partir do conhecido  Euclides de Megara que viveu aproximadamente 100 anos mais cedo.

 

 

 

 


     
 

A Obra

 

Embora se tenham perdido mais de metade dos seus livros, ainda restaram, para felicidade dos séculos vindouros, os treze famosos livros que constituem os Elementos (Stoicheia). Publicados por volta de 300 a.C., aí está contemplada a aritmética, a geometria e a álgebra.

Os Elementos são - a seguir à Bíblia - provavelmente, o livro mais reproduzido e estudado na história do mundo ocidental. Foi o texto mais influente de todos os tempos, tão marcante que os sucessores de Euclides o chamavam de "elementador". Esta obra é considerada um dos maiores best-sellers de sempre. Obra admirada pelos matemáticos e filósofos de todos os países e de todos os tempos pela pureza do estilo geométrico e pela concisão luminosa da forma, modelo lógico para todas as ciências físicas pelo rigor das demonstrações e pela maneira como são postas as bases da geometria.

São raros os livros que têm sido tão editados, traduzidos e comentários como os Elementos de Euclides. Na antiga Grécia, esta obra foi comentada por Proclo (411-485), Herão (c. 10-75) e Simplício (490-560); na Idade-Média foi traduzida em latim e árabe; após a descoberta da imprensa, fizeram-se dela numerosas edições em todas as línguas europeias. A primeira destas edições foi a de Campano (1220-1296), em latim, publicada em 1482, edição usada por Pedro Nunes (1502-1578), que a citou numerosas vezes nas suas obras.
Em Portugal, publicou Angelo Brunelli em 1768 uma tradução em português dos seis primeiros livros, do undécimo e do duodécimo. Para esta tradução serviu-se da versão latina de Frederico Comandino e fê-la seguir de algumas notas com que Roberto Sinson (1687-1768) tinha ilustrado esta versão. Este livro, foi outrora muito usado nas escolas portuguesas razão pela qual se fizeram novas edições da tradução de Brunelli em 1790, 1792, 1824, 1835, 1839, 1852, 1855 e 1862.

O trabalho de Euclides é tão vasto que alguns historiadores não acreditavam que fosse obra de um só homem. Os trabalhos matemáticos que chegaram até nós foram inicialmente traduzidos para árabe, depois para latim, e a partir destes dois idiomas para outras línguas europeias.

Embora alguns conceitos já fossem conhecidos anteriormente à sua época, o que impossibilita uma análise completa da sua originalidade, pode-se considerar o seu trabalho genial. Ao recolher tudo o que então se conhecia, sistematiza os dados da intuição e substitui imagens concretas por noções abstractas, para poder raciocinar sem qualquer apoio intuitivo.

Fonte: http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/seminario/euclides/index.htm

 

Página de uma edição medieval dos Elementos de Euclides, que data do ano 888. Está escrito à mão (como todos os livros eram naquele tempo), e é escrito em grego.
O manuscrito é chamado de "o manuscrito de Bodleian" porque petence à Biblioteca de Bodleian, da Universidade de Oxford.



A Óptica de Euclides é o mais antigo trabalho conhecido sobre óptica geométrica, e é referido geralmente nos manuscritos gregos em trabalhos elementares na astronomia esférica. Algumas traduções medievais feitas em latim foram importantes no século XV para a teoria da perspectiva linear. Esta técnica é ilustrada maravilhosamente aqui na miniatura de uma cena de rua neste manuscrito elegante da biblioteca do duque de Urbino (Lourenço de Médicis, 1449-1492). Este manuscrito pode ter estado alguma vez na posse de Piero della Francesca (1412-1492), que escreveu um dos principais tratados de perspectiva na pintura.
The Vatican Library

 

   

 


Muitos outros textos são atribuídos a Euclides, dos quais se conhecem alguns títulos:

  • Divisões de superfícies;

  • Data (continha aplicações da álgebra à geometria numa linguagem estritamente geométrica);

  • Pseudaria;

  • Tratado sobre Harmonia;

  • A Divisão (continha muito provavelmente 36 proposições relativas à divisão de configurações planas);

  • Os Dados (formavam um manual de tabelas, servindo como guia de resolução de problemas, com relação entre medidas lineares e angulares num círculo dado);

  • Óptica (seria um estudo da perspectiva e desenvolveria uma teoria contrária à de Aristóteles, segundo a qual é o olho que envia os raios que vão até ao objecto que vemos e não o inverso);

  • Os Fenómenos (celestes) (pensa-se que Euclides  discorreria sobre Geometria esférica para utilização dos astrónomos);

  • Porismos (um dos mais lamentáveis desaparecimentos, este livro poderia conter aproximações à Geometria Analítica).

 

 


     
 

As Fontes

 

Nos Elementos, Euclides compilou e sistematizou muitos dos resultados matemáticos mais importantes conhecidos no seu tempo, de autoria diversa e alguns já conhecidos desde há muito tempo. Por isso, Euclides não deve ser considerado o descobridor da totalidade, nem sequer da maioria, dos teoremas ou das teorias que constituem o tratado.

Entre esses autores, destacam-se:

  • Hipócrates de Chios (~470-410 a.C.)
    Os matemáticos gregos da idade do ouro da Grécia (460 a.C - 430 a.C.) possuíam um sistema ordenado de geometria plana, em que o princípio da dedução lógica (apagoge), que permitia inferir uma afirmação a partir de outra, tinha sido inteiramente aceite. Era o início da axiomática, como é indicado pelo nome do livro supostamente escrito por Hipócrates, Elementos (Stoicheia), que é o título de todos os tratados axiomáticos gregos, incluindo o de Euclides. [1]

  • Teeteto (417-369 a.C.)
    O Livro X trata da teoria dos números irracionais e ele é na maior parte o trabalho de Teeteto. [2]

  • Eudoxo de Cnido (408-355 a.C.)
    Euclides alterou as provas de vários teoremas no Livro X de modo a ajustarem-se à nova definição de proporção dada por Eudoxo. [2]

  • Teúdio de Magnésia (c. 350? a.C.)
    Cujo tratado era usado na Academia e, provavelmente, utilizado por Aristóteles. [3]

Euclides, nos Elementos, reúne num só tratado quatro grandes descobertas do seu passado recente: a teoria das proporções de Eudoxo, a teoria dos irracionais de Teeteto, a teoria dos cinco sólidos regulares, importante na cosmologia de Platão, e a teoria da semelhança de triângulos de Thales de Mileto.

 

   










 


     
 

A Influência no Panorama Matemático

     

A Influência de Euclides

Desde Platão a Kant, os filósofos viram a geometria euclideana como um tipo especial do conhecimento - perfeitamente certo, independente da experiência, ainda de algum modo útil no mundo. A geometria, então, provou a existência de um tipo de conhecimento incrivelmente poderoso, e os filósofos sentiram-se convidados a aprofundá-lo.

Com Euclides, a razão passou a ser coerciva: Qualquer pessoa sensata deve chegar às mesmas conclusões, quer ela queira ou não. Esta ideia mudou o Mundo.

 

Como é que conseguimos falar de coisas que nunca ninguém viu e percebê-las melhor do que os objectos reais do dia a dia? Por que razão a geometria euclidiana ainda é correcta, quando a física aristotélica já morreu há muito? O que sabemos em matemática e como o sabemos?

Com o texto em anexo, pretende-se dar uma perspectiva histórica da influência de Euclides no mundo ocidental. Apresentam-se também mais alguns excertos de textos relativos a este assunto, que incluem, alguns deles, referências à influência de Euclides sobre a matemática portuguesa.

 

If Euclid did not invent his geometry, but just recorded knowledge that had been around for centuries before him, what did he do that was so important that his text was preserved and used for thousands of years?

Euclidean geometry was history's first example of a system of knowledge. Egyptian and Babylonian geometry texts are little more than lists of facts and formulas. But Euclid had not just put together a set of facts, he had assembled those facts into a structure. All the terms were defined, all the assumptions listed, and all the other statements were derived rigorously from those assumptions. By comparison all other fields of human thought were little more than grab-bags of ideas and tricks.

The assumptions – which are called postulates – are examples of what became known as self-evident truth. In other words, once these propositions were understood, they could not be denied. For a truth to be self-evident meant that even imagining its contradiction involved the mind in absurdities. Euclid's postulates include statements like “Any two points can be connected by a line” and “Any circle divides the plane into an inside and an outside.” These statements seemed to be fundamentally different from a truth of experience, like “Snow is white." You can easily imagine green snow or purple snow, even if you have never seen it. But how could a circle not divide a plane into inside and outside?

Euclid also did something more subtle, something that changed the course of human thought for all time. Prior to Euclid, arguments were private affairs. If I wanted to use reason to convince you of something, I would begin with premises that you would accept, and progress logically from there. The particular premises that you would grant might be very different from those of another person, and the argument that would result from our conversation would be unique to us. (Plato's dialogues are examples of such arguments. Changing any one of the characters would change the argument.) But Euclid's assumptions are not intended to be granted by you or me or any other particular person; they are intended to be universally acceptable. Likewise, the steps of Euclid's proofs are not intended to convince any particular person; they are intended to be beyond anyone's reproach. Euclid's structure establishes geometry as a public truth, not a private conviction.

Another way to say the same thing is that with Euclid, reason becomes coercive. If your assumptions are unquestionable, and your logic is rigorous, then all reasonable people are forced to agree with your conclusions, even if they would rather not.

http://www.gurus.com/dougdeb/Essays/Geometry/Euclid.html
What Euclid Did
a section of The Unreasonable Influence of Geometry by Doug Muder

 

 

Euclides e os Elementos são inseparáveis. Os 13 livros que constituem essa obra monumental contêm uma grande parte dos assuntos de matemática elementar que os gregos anteriores a Euclides e o próprio Euclides e outros matemáticos seus contemporâneos (Eudóxio de Cnido, por exemplo) elaboraram, mas expostas de uma forma seleccionada de acordo com um critério prefixado que converteu esses conjuntos de conhecimentos em sistemas coerentes e consistentes que persistiram durante mais de 23 séculos!; o método euclidiano (hoje, naturalmente aperfeiçoado, designa-se por método axiomático) consistiu em anunciar previamente as definições dos seres e as hipóteses básicas acerca deles (postulados ou axiomas) sobre as quais se construirá a geometria, a aritmética, etc., e depois construir estas ciências em forma rigorosamente dedutiva; tal método serviu de modelo a um tipo de construção científica que usado desde então na matemática se estendeu e se estende ainda hoje a outros sectores científicos. Que Euclides tenha conseguido sistematizar tão perfeitamente os conhecimentos do seu tempo, que tenha realizado na geometria, sobretudo, uma construção lógica impecável, que o seu método de raciocínio se tenha revelado impossível de ser ultrapassado, eis o que mostra que este grande sábio era excelente a expor ciência e que deve ter sido um professor inigualável.

Euclides é, provavelmente, o autor científico melhor sucedido de todos os tempos.

Talvez nenhum outro livro, além da Bíblia, se possa gabar de tantas edições em diversas línguas e certamente nenhuma outra obra matemática teve tanta influência como a exercida pelos Elementos: durante mais de dois mil anos, eles serviram como modelo de raciocínio lógico para todo o mundo, e pode afirmar-se que, durante todo esse tempo, todos os estudantes que aprenderam geometria, aprenderam-na de Euclides.

Galeria de Matemáticos do Jornal de Mathematica Elementar, 1991, pág. 20-21

 

 

 

Anexo:
Da certeza à fiabilidade

Platonismo, formalismo, construtivismo [A]

A condição filosófica do matemático [B]

O mito de Euclides [C]

Fundamentos, achados e perdidos [D]


Um extracto de
A Experiência Matemática,
de Philip J. Davis e Reuben Hersh.


Uma visão brilhante e fundamentada do desenvolvimento da matemática [...] Magnífico. Consegue comunicar ao leitor comum a beleza e o fascínio pelo tema.
New York Times

Uma verdadeira jóia. Uma obra-prima do nosso tempo.
Americam Mathematical Monthly

O riquíssimo e diversificado mundo da matemática é apresentado neste livro: a sua história e filosofia, a sua estética e pedagogia - mesmo as personalidades dos matemáticos são apresentadas em belíssimos sketches biográficos pontuados por acessíveis e sólidas discussões das obras [...]. Um livro verdadeiramente maravilhoso.
The New Yorker

De repente, somos transportados para outro mundo - um mundo novo e diferente, mas ao mesmo tempo estranhamente familiar. Matemáticos ilustres, problemas famosos e problemas curiosos; as ideias, a história, a descoberta, a filosofia: a Experiência Matemática inspira-nos o entusiasmo de pensar, de respirar, de viver a matemática. Não é um livro de divulgação: é uma obra de arte única.
DOUTOR JORGE BUESCU, Instituto Superior Técnico, revisor científico de A Experiência Matemática

PHIPLIP J. DAVIS é professor de Matemática Aplicada na Brown University.

REUBEN HERSCH é professor de Matemática na Univesidade de New Mexico em Albuquerque.

 

 

 

 

 

 
     


 

Deve referir-se que a Álgebra, domínio em que se deram estes avanços, estava, na época [séc. XV-XVI], completamente permeada pela linguagem e pelos métodos da Geometria. Era essa a tradição grega, nomeadamente dos Elementos de Euclides (séc. III a.C.), obra em que se encontram muitas proposições correspondentes a factos algébricos simples enunciadas em linguagem puramente geométrica. Este facto (relevante pela extraordinária influência do livro de Euclides ao longo dos tempos, até aos nossos dias) tem suscitado debates sobre as suas causas e significado. Sem entrar em tais controvérsias, pode dizer-se que para a génese dessa atitude são em geral apontadas as dificuldades dos gregos com as quantidades irracionais, que emergem da aplicação do Teorema de Pitágoras (séc. VI a.C.): naturais portanto do ponto de vista geométrico, os números irracionais terão levantado problemas filosóficos que adiaram por séculos o progresso da Álgebra.

http://www.mat.uc.pt/~jfqueiro/HistUniv.pdf [Pág. 1-2]

 

 

O anel náutico baseia-se numa propriedade geométrica que Euclides demonstra na proposição 20 do livro III dos seus Elementos e que Nunes [Pedro Nunes] expressamente refere dizendo que o ângulo «que está na circunferência do círculo contém um arco duplo do que tem vértice no centro». Em linguagem moderna, dir-se-á que o ângulo ao centro, isto é, com vértice no centro do astrolábio, é duplo do ângulo inscrito, isto é, com vértice no ponto C.

http://www.instituto-camoes.pt/cvc/ciencia/e29.html

 

 

A influência do Liber Calculationum, de Swineshead, é clara, mas a exposição de Álvaro Tomás é mais sistemática e mais bem organizada. A primeira impressão que o leitor retem é a da extensão dos conhecimentos de Álvaro Tomás. As suas fontes matemáticas vão dos mais antigos, Nicómaco ou Boécio, até à edição muito recente de Euclides por Bartholomeus Zambertus (Veneza, 1505). Está tão à vontade com os ingleses Swineshead, Bradwardine e Heytesbury, como com os parisienses, entre eles Oresme, e com os italianos (Paulo de Veneza, Jaime de Forli, etc.). O mestre português está na posição excepcional de conhecer as técnicas formais da abordagem de Merton, a tradição conceptual da escola parisiense e os contributos italianos

http://www.instituto-camoes.pt/cvc/ciencia/e44.html

 

 

Em certo sentido os Elementos de Euclides são a mais importante obra na história da matemática. Tornaram-se quase num símbolo do que significa o próprio raciocínio matemático, pois, embora se recolham muitos resultados conhecidos, a estruturação e o rigor lógico com que as matérias são apresentadas é inovadora. A sua importância transcendeu inclusivamente a matemática, a ponto de o desenvolvimento lógico de tipo euclidiano se ter tornado numa ambição de muitas outras disciplinas. O impacto desta obra foi tal que durante cerca de 2000 anos os Elementos de Euclides foram a obra fundamental em todos os estudos de matemática. [...] Os Elementos foram objecto de muitos comentários na Antiguidade, por Herão, Papo, Porfírio, Proclo e Simplício, entre outros, e a história da sua transmissão desde a Antiguidade até ao Renascimento é extremamente complexa dada a grande variedade de comentários, versões, traduções, acrescentos, etc. a que foi sujeito.
A obra que aqui se apresenta é um exemplar da primeira versão impressa dos Elementos de Euclides, a famosa edição com os comentários de Campano de Novara, impressa nas oficinas de Erhard Ratdolt. Entre os vários aspectos desta edição que valeria a pena assinalar, refira-se apenas que se trata do primeiro texto impresso, de grande extensão, a conter diagramas matemáticos, o que implicou a resolução de alguns delicados problemas de tipografia.

http://bnd.bn.pt/ed/pedro-nunes/obras/fontes-p-nunes/pn_fontes_outras_37.asp
[Fontes de Pedro Nunes]

 

 

Em 1505 Bartolomeo Zamberto (n. ca. 1473) publicou uma nova tradução latina dos Elementos, a partir do grego. Nessa edição Zamberto criticou duramente o texto latino de Campano que circulava em manuscrito e havia sido impresso alguns anos antes [ver o n.º 37]. Estas críticas lançaram uma acesa polémica pois logo de seguida não faltaram os que, como fez Luca Paccioli em 1509, saíram em defesa do texto de Campano, atribuindo as suas deficiências aos erros de copistas. Uma solução de compromisso parece ter sido adoptada com esta edição que aqui se refere, que inclui ambas as versões do texto, isto é, ex Campano e também ex Zamberto. A esta primeira edição em 1516 seguiram-se outras. O esforço de resolução dos complexos problemas filológicos associados à edição de um texto fundamental de matemática é um traço típico da ciência renascentista e do século xvi, e viria a culminar com a primeira edição do texto grego dos Elementos, em 1533, que se apresenta no n.º 39. Nos seus trabalhos Pedro Nunes mostra ter pleno conhecimento dos Elementos de Euclides, quer na tradição de Campano, quer com os comentários e correcções de Zamberto, e é quase certo que a sua biblioteca pessoal possuiria exemplares dos Elementos na edição de Ratdolt, de 1482 [n.º 37], e nesta de Paris, 1516.

http://bnd.bn.pt/ed/pedro-nunes/obras/fontes-p-nunes/pn_fontes_outras_38.asp
[Fontes de Pedro Nunes]

 

 

Esta é a célebre editio princeps do texto grego dos Elementos, pelo teólogo alemão Simão Grynaeus (fal. 1541). Não é ainda uma questão definitivamente resolvida a que se refere à competência de Pedro Nunes em grego, o que se prende sobretudo com a escassez de informações relativas aos seus anos de formação, e com o facto de as fontes gregas que usou nos seus trabalhos existirem em versões latinas na altura em que escreveu. No entanto, levando em consideração a época em que viveu e a amplidão das suas competências, é provável que dominasse também o grego. Seja como for, o que não oferece qualquer dúvida é que os Elementos de Euclides foram, a par com o Almagesto de Ptolomeu, as duas mais importantes obras usadas por Pedro Nunes e por ele abundantemente citadas.

http://bnd.bn.pt/ed/pedro-nunes/obras/fontes-p-nunes/pn_fontes_outras_39.asp
[Fontes de Pedro Nunes]

 

 

 

 

BN INC. 672 - Pert.: "Da Livr.ª de S. B.to de Xabregas". - Encadernação em pele, sobre pastas de cartão, com gravações a ouro na lombada

 

BN S.A. 708 A. - Nota manuscrita: "Orontius Fineus Delphinas hoc sibi comparavit exemplar. 1533"; Pert.: "Louys de Machault 1613"; "Jehan Chartier 1629". - Notas marginais manuscritas. - Encadernação em pele, sobre pastas de cartão, com ferros gravados a ouro na lombada com vestígios de acção de insectos

 

 


     

 

Elementos I.1

 

Elementos

 
 

Os matemáticos gregos da idade do ouro da Grécia (460 a.C - 430 a.C.) possuíam um sistema ordenado de geometria plana, em que o princípio da dedução lógica (apagoge), que permitia inferir uma afirmação a partir de outra, tinha sido inteiramente aceite. Era o início da axiomática, como é indicado pelo nome do livro supostamente escrito por Hipócrates, Elementos (Stoicheia), que é o título de todos os tratados axiomáticos gregos, incluindo o de Euclides.[1]

 

Péricles
Usa o capacete de estratego, ou seja, chefe do exército, função que lhe permite exercer o poder em Atenas durante perto de 25 anos.
440 a. C.
British Museum, Londres

Durante 30 anos, a história da capital da Ática confunde-se com a de um homem: Péricles. Este aristocrata vai reforçar a democracia, enriquecer e embelezar a sua cidade. Mas os seus apetites imperialistas vão, também, precipitá-lo no mais aventuroso dos conflitos, contra Esparta, a eterna rival. Rebenta a guerra do Peloponeso, de que Atenas nunca recuperará. Péricles não assistirá ao declínio da sua cidade: morre em 429, e, em 404 a. C., os Espartanos entram vitoriosos no Pireu.
Tucídides, um dos mais ilustres historiadores da Antiguidade, escreve que a Atenas de Péricles era «a escola da Grécia». De facto, o homem de Estado sabe rodear-se de criadores cujas obras atravessarão os séculos: Fídias, o arquitecto do Pártenon; Sófocles, que dá à tragédia grega a sua forma clássica; Protágoras, o filósofo que ensina que o homem é a medida de todas as coisas» ...

No tempo da Grécia Antiga,
História do Mundo, Selecções do Reader's Digest, 1996, Pág. 131

 



Fonte:
http://www-groups.dcs.st-and.ac.uk/~history/Chronology/ChronologyA.html

 

Aristóteles (384-322 a.C.), em Posterior Analytics, apresenta uma discussão detalhada do papel dos primeiros princípios em ciências demonstrativas. Os primeiros princípios são aqueles conceitos ou as afirmações que permanecem sem serem provadas. A sua veracidade é suposta e delas outras afirmações são provadas. Os primeiros princípios de Aristóteles podem ser classificados em três tipos: definições, axiomas, e postulados.

Uma definição é uma indicação que requer somente uma compreensão dos termos que estão a ser usados. Não diz nada sobre a existência da coisa que está a ser definida; isto deve ser provado separadamente. Por exemplo, definir o significado do termo ''círculo" não implica que tal objecto exista.

Um axioma ou uma noção comum é uma afirmação, cuja veracidade é aceite por ser notoriamente óbvia, e que é aplicável - por analogia, pelo menos - em todas as ciências. Um exemplo é "coisas iguais a uma terceira são iguais entre si"; este é o primeiro axioma nos Elementos.

Os postulados, como os axiomas, são assumidos sem prova. Contudo, enquanto que os matemáticos modernos tendem a não fazer distinção entre os dois, os gregos antigos faziam-na. Aristóteles indica três maneiras de diferenciar postulados e axiomas:

  1. Os postulados não são evidentes por si mesmo, como são os axiomas.
  2. Os postulados são aplicáveis somente à ciência específica que está sendo considerada, visto que os axiomas são mais gerais.
  3. Os postulados afirmam que algo existe, enquanto que os axiomas não.

Cada um dos postulados de Euclides pode satisfazer algumas ou todas estas interpretações. Por exemplo, o postulado "descrever um círculo com um dado centro e um dado raio" dá obviamente uma indicação sobre a existência dos círculos que não é realmente evidente por si mesma, como o é no axioma no exemplo acima. [4]

Segundo Proclo, os gregos antigos definiam os "elementos" de um estudo dedutivo como os teoremas-mestre, de uso geral e amplo no assunto. Euclides, no livro Os Elementos, tomou como base cinco axiomas e cinco postulados geométricos e tentou deduzir todas as suas quatrocentos e sessenta e cinco proposições dessas dez afirmações. Certamente um dos grandes feitos dos matemáticos gregos antigos foi a criação da forma postulacional de raciocínio. [5]

Nos Elementos, após as premissas iniciais aparecem as proposições divididas em dois tipos: os problemas e os teoremas. A proposição I.1 é precisamente um problema:

       Sobre uma linha recta determinada, descrever um triângulo equilátero    

 

 

   

 


Hipócrates
(~470 - ~410 a.C.)

 

O SÉCULO DE PÉRICLES

Como pôde Atenas influenciar tão duradouramente a história do Mundo? A que feliz destino atribuir ao facto de ela se ter tornado a nossos olhos a cidade grega por excelência? Mesmo que não seja possível responder a estas perguntas, é forçoso sublinhar até que ponto somos herdeiros da civilização que desabrochou no coração do século V a. C.
A inteligência, a independência, a piedade, a emoção, a indignação, a esperança, tais são os sentimentos que nos transmitiu, as sensibilidades que nos legou.
É certo que Atenas conheceu a sorte comum que, em meio século, a fez passar da glória ao declínio. É certo que uma grande parte dessa glória se baseava no trabalho de escravos, que, apesar de mais bem tratados do que noutros lugares, nem por isso deixavam de estar excluídos da comunidade dos cidadãos. É certo que a idade de ouro da Grécia não deve fazer-nos esquecer a violência das guerras civis e das confrontações entre ricos e pobres. Mas também é certo que ninguém hoje pode ser insensível às palavras de Péricles, que, fazendo o elogia dos guerreiros mortos durante o primeiro ano de combates entre Atenas e Esparta, proclamava: «Nós sabemos conciliar o gosto do belo com a simplicidade, e o gosto pelo estudo com a energia.»

No tempo da Grécia Antiga,
História do Mundo, Selecções do Reader's Digest, 1996, Pág. 129

 

 

A Chronology of  Mathematicians

 

 

 


Aristóteles
(384 - 322 a.C.)

 

 

 


Euclides
(~325 - ~265 a.C.)

 

 
 

A epopeia de Alexandre

 

Alexandre, o Grande
Rei da Macedónia (356-323 a.C.)

Como pôde um reinado de 12 anos mudar a face do mundo?
É uma pergunta que já faziam aqueles que rodeavam Alexandre III da Macedónia, chamado Alexandre Magno, ou o Grande, impressionados por este jovem de 20 anos que, de 336 a 324 a.C., tinha percorrido mais de 18.000 km, travando quatro grandes batalhas, submetido o império persa de Dario, o Grande Rei, fundado numerosas cidades chamadas Alexandria, a mais longínqua das quais se encontra hoje no Tajiguistão, aberto o Oriente à civilização grega e criado um império que se estendia da actual Albânia até às fronteiras da Caxemira. E não a terá o próprio Alexandre feito a si mesmo, ele que determinou que se chamasse oficialmente «deus invicto», filho do deus do Egipto Amom-Ré, ou Dionísio encarnado, e que estava convencido de ser descendente de Aquiles, o rei da guerra de Tróia, e de Herácules, filho do próprio Zeus? Por muito que o historiador se esforce por desmontar os mitos, por medir escrupulosamente as partes que cabem ao mérito e à sorte, é impossível não se deixar fascinar pela extraordinária epopeia do maior conquistador da Antiguidade, um conquistador que dá razão a todos aqueles que pensam que os grandes homens desempenham um papel considerável na história.



Clique para ampliar

No tempo da Grécia Antiga,
História do Mundo, Selecções do Reader's Digest, 1996, Pág. 169-170

 

O Museu de Alexandria segundo Estrabão

O Museu (templo das Musas) foi fundado por Ptolomeu I, general de Alexandre, no princípio do século III a.C. Estrabão descreve assim o Museu no século I a.C.: "O Museu é também uma parte dos palácios reais; tem um passeio público, um Exedra (átrios) com assentos e uma casa grande, na qual se pode encontrar um lugar de reunião comum dos homens sábios que coabitam no Museu. Este grupo de homens não compartilha apenas bens em comum mas tem também um sacerdote encarregue do Museu, que originalmente era nomeado pelos reis".

Tradução livre a partir de Sarton, G. (1959).
Hellenistic science and culture in the last three centuries B.C (p. 30). Nova Iorque: Dover

 

 

   

A Cidade Plotomaica
(323 a.C. - 30 a.C.)

Depois da morte de Alexandre, nenhum sucessor emergiu para reivindicar seu reino. Por isso, os territórios foram divididos entre vários governadores. O Egipto era a parte do mais hábil destes: Ptolemeu. Era macedónio por nascimento, mas testemunhava o nascimento de Alexandria e queria-a para a capital cultural e intelectual do mundo. Governou em 323 a.C., reinou em 304 a.C., e expandiu o seu reino até  incluir Cyrene (Líbia), Palestina, Chipre, e outras terras. Os seus títulos reais incluíram o Rei Soter, e o Pharaoh. Sob o reino de Soter, a idade dourada de Alexandria, a capital novo de Egipto, começara. [E]

 

No Egipto do século III a. C., os eruditos de Alexandria podiam trabalhar sem preocupações materiais

O PRIMEIRO MUSEU

Demétrio de Falero governava Atenas em nome de Cassandro. Excelente homem de Estado, não pôde, no entanto, impedir o antigónida Demétrio Poliocertes, o «tomador de cidades», de conquistar a sua. Foi então refugiar-se junto dos Lágidas, no Egipto. Aí, convenceu Ptolemeu I a criar um lugar onde escritores e sábios pudessem estudar sem terem de ganhar a vida. Assim nasceu o «museu», santuário das Musas, as nove divindades protectoras das artes e das letras.

No tempo da Grécia Antiga,
História do Mundo, Selecções do Reader's Digest, 1996, Pág. 179

 

 

 

     
 

Proposição 1, segundo
David E. Joyce

 

 

Euclid's Elements
Book I
Proposition 1
(David E. Joyce)

To construct an equilateral triangle on a given finite straight line.

Let AB be the given finite straight line.

It is required to construct an equilateral triangle on the straight line AB.

java applet or image Describe the circle BCD with center A and radius AB. Again describe the circle ACE with center B and radius BA. Join the straight lines CA and CB from the point C at which the circles cut one another to the points A and B. Post.3

Post.1

Now, since the point A is the center of the circle CDB, therefore AC equals AB. Again, since the point B is the center of the circle CAE, therefore BC equals BA. I.Def.15
But AC was proved equal to AB, therefore each of the straight lines AC and BC equals AB.
And things which equal the same thing also equal one another, therefore AC also equals BC. C.N.1
Therefore the three straight lines AC, AB, and BC equal one another.
Therefore the triangle ABC is equilateral, and it has been constructed on the given finite straight line AB. I.Def.20
Q.E.F.

 

Nota:
Q.E.F., no final da prova, é uma abreviatura do Latim "quod erat faciendum", que significa "qual devia ser feito".
Q.E.D. é uma abreviatura de "quod erat demonstrandum", que significa "qual devia ser demonstrado".

 

 

 


David E. Joyce

Professor de
Mathematics and Computer Science
na
Clark University


http://aleph0.clarku.edu/~djoyce/
java/elements/elements.html

I'm creating this version of Euclid's Elements for a couple of reasons. The main one is to rekindle an interest in the Elements, and the web is a great way to do that. Another reason is to show how Java applets can be used to illustrate geometry. That also helps to bring the Elements alive.

Jaume Domenech Larraz traduziu esta versão dos Elementos para Catalão em http://www.euclides.org/.

O texto desta versão dos Elementos de Euclides é semelhante à edição de Heath, que a traduziu da edição definitiva em Grego de Heiberg, mas de forma menos literal para a tornar mais clara.
O texto da tradução de Heath dos Elementos de Euclides está disponível on-line em Perseus Project, Tuft's University.

 

 

     
 

Proposição 1, segundo
Oliver Byrne

 
 

Euclid's Elements
Book I
Proposition 1
(Oliver Byrne)


Nota:

Q.E.D., no final da prova, é uma abreviatura de "quod erat demonstrandum", que significa "qual devia ser demonstrado".
Q.E.F. é uma abreviatura do Latim "quod erat faciendum", que significa "qual devia ser feito".

 

Def. 15
 

 

Post. 1

 

 

 

Post. 3

 

 

Axioma 1

 

 

 

 

Oliver Byrne
(1815 - 1885)

 

Uma edição pouco comum e atractiva dos Elementos de Euclides foi publicada em 1847 em Inglaterra, editada por um matemático desconhecido de nome Oliver Byrne. Esta publicação inclui os primeiros 6 livros, que cobre a maioria da geometria plana elementar e da teoria das proporções. O que distingue a edição de Byrne é que tenta apresentar as provas de Euclides em termos das figuras apresentadas, usando pouco texto tanto quanto possível. O que faz o livro especialmente admirável é o uso da cor.





Esta obra está a ser colocada on-line como um projecto conjunto da University of British Columbia Library, Special Collections division, e UBC SunSITE.
Ao consultar estas páginas é possível ir comparando a obra de Byrne com as de David Joyce e Heath.


Estas páginas são do site Digital Mathematics Archive, que contém também a ligação a Erhard Ratdolt - tanto quanto se sabe, é o primeiro editor de material científico. É famoso pela sua primeira edição (1482) de Euclides, adaptada da tradução medieval de Campano.

 

 

 

 

 

Outro site sobre Oliver Byrne
(incluindo uma selecção de páginas da edição de Euclides)



 

 

     
 

Proposição 1, segundo
edição portuguesa de 1855

 
 

Elementos de Euclides
Livro I
Proposição 1
(edição portuguesa de 1855)

PROPOSIÇÃO I. PROBLEMA.

Sobre uma linha recta determinada descrever um triangulo equilatero.

Seja a linha recta AB de um certo comprimento. Se deve sobre ella descrever um triangulo equilatero.

Com o centro A e com o intervallo AB se descreva ( Post. 3 ) o circulo BCD; e com o centro B e com o intervallo BA se descreva o circulo ACE. Do ponto C, onde os circulos se cortam reciprocamente, se tirem ( Post. 1 ) para os pontos A, B as rectas CA, CB. O triangulo ABC será equilatero. Sendo o ponto A o centro do circulo BCD, será AC=AB ( Definiç. 15 ). E sendo o ponto B o centro do circulo CAE, será BC=BA. Mas temos visto CA=AB. Logo tanto CA, como CB, é egual a AB. Mas as cousas, que são eguaes a uma terceira, são eguaes entre si ( Ax. 1 ). Logo será CA=CB. Logo as tres rectas CA, AB, BC são eguaes; e por consequencia o triangulo ABC, feito sobre a recta dada AB, é equilatero.


DEFINIÇÕES.

  1. Ponto é o, que não tem partes, ou o, que não tem grandeza alguma.
  2. Linha é o, que tem comprimento sem largura.
  3. ...
  4. ...
  5. ...
  6. ...
  7. ...
  8. ...
  9. ...
  10. ...
  11. ...
  12. ...
  13. ...
  14. ...
  15. Circulo é uma figura plana, fechada por uma só linha, a qual se chama circumferencia: de maneira que todos as linhas rectas, que de um certo ponto existente no meio da figura, se conduzem para a circumferencia, são eguaes entre si.

 

POSTULADOS.

  1. Pede-se como cousa possivel, que se tire de um ponto qualquer para outro qualquer ponto uma linha recta.
  2. E que uma linha recta determinada se continue em direitura de si mesma, até onde seja necessario.
  3. E que com qualquer centro e qualquer intervallo se descreva um circulo.

 

AXIOMAS.

  1. As cousas, que são eguaes a uma terceira, são eguaes entre si.
  2. Se a cousas eguaes se junctarem outras eguaes, os todos serão iguaes.
  3. E, se de cousas eguaes se tirarem outras eguaes, os restos serão iguaes.
  4. E, se a cousas deseguaes se ajunctarem outras eguaes, os todos serão deseguaes.
  5. E, se de cousas deseguaes se tirarem cousas eguaes, os restos serão deseguaes.
  6. As quantidades, das quaes cada uma por si faz o dobro de outra quantidade, são eguaes.
  7. E aquellas, que são ametades de uma mesma quantidade, são tambem eguaes.
  8. Duas quantidades, que se ajustam perfeitamente uma com outra, são eguaes.
  9. O todo é maior do que qualquer das suas partes.
  10. Duas linhas rectas não comprehendem espaço.
  11. Todos os angulos rectos são eguaes.
  12. E se uma linha recta, encontrando-se com outras duas rectas, fizer os angulos internos da mesma parte menores que dous rectos, estas duas rectas, produzidas ao infinito concorrerão para a mesma parte dos dictos angulos internos.

 

 

 



(Versão digital)

 


Gomes Teixeira
(1851-1933)

 

Na versão digital da História das Matemáticas em Portugal, de Francisco Gomes Teixeira, pode ler-se na introdução à obra:

São muito raros os livros que têm sido tão espalhados em edições, traduções e comentários como os Elementos de Geometria de Euclides. Na antiga Grécia foi esta obra comentada por Proclo, Herão, Simplício, etc., na Idade-Média foi traduzida em latim e árabe e, após a descoberta da imprensa, fizeram-se dela numerosas edições em tôdas as línguas europeias. A primeira destas edições foi a de Campano, em latim, publicada em 1482, edição usada pelo nosso Pedro Nunes, que a citou numerosas vezes nas suas obras.
Em Portugal, publicou Angelo Brunelli em 1768 uma tradução na nossa língua dos seis primeiros livros, do undecimo e do duodecimo. Para esta tradução serviu-se da versão latina de Frederico Comandino e fê-la seguir de algumas notas com que Roberto Sinson tinha ilustrado esta versão. O livro de que nos estamos ocupando, foi outr’ora muito usado nas escolas portuguesas, e por isso fizeram-se novas edições da tradução de Brunelli em 1790, 1792, 1824, 1835, 1839, 1852, 1855 e 1862.

É exactamente a versão digital da edição de 1855 da tradução de Angelo Brunelli que é considera agora nesta secção.

 

 

 

     
 

Proposição 1, segundo uma linguagem actual

 
 

Elementos de Euclides
Livro I
Proposição 1
(linguagem actual)

Sobre um segmento de recta dado, construir um triângulo equilátero.

Consideremos um qualquer segmento de recta [AB]; sobre ele vamos construir um triângulo equilátero.

Por favor habilite Java para uma construção interativa (com Cinderella).

Construamos a circunferência de centro em A e que passa em B (Post.3); construamos ainda a circunferência de centro em B e que passa em A (Post.3).

Por favor habilite Java para uma construção interativa (com Cinderella).

Tracemos agora os segmentos de recta [CA] e [CB], desde o ponto C (onde as circunferências se intersectam) até aos pontos A e B, respectivamente (Post.1).

Por favor habilite Java para uma construção interativa (com Cinderella).

Como A é o centro da circunferência primeiro construída, então [AB] e [AC] são iguais (Def.15). De igual modo, considerando a circunferência de centro em B, serão também iguais [AB] e [BC] (Def.15).
Sendo [AC] igual a [AB] e [BC] igual a [AB], então [AC] é também igual a [BC] (NC1). Logo, os três segmentos, [AB], [BC] e [AC], são iguais entre si e, consequentemente, o triângulo [ABC], construído sobre [AB], é equilátero (Def.24).

Q.E.F.

 

 

 

Agora, na demonstração da Proposição 1 do Livro I dos Elementos, vão ser tidos em conta os primeiros princípios considerados na versão portuguesa de 1855 (tradução de Angelo Brunelli), com o enunciado sugerido pelo formador José Miguel Sousa.
A essa lista, foi acrescentada a Def.24:

 

Círculo é uma figura plana contida por uma linha tal que todas as linhas rectas com extremidades nessa linha e num ponto contido na figura são iguais. Este ponto chama-se centro do círculo. Def.15
Entre os triângulos, o triângulo equilátero é o que tem os três lados iguais. Def.24
Traçar uma linha recta de qualquer ponto a qualquer ponto. Post.1
Prolongar continuamente uma linha recta numa linha recta. Post.2
Descrever um círculo com um dado centro e passando por um dado ponto. Post.3
Coisas iguais a uma terceira são iguais entre si. NC1
Se iguais são adicionados a iguais então os todos são iguais. NC2
Se iguais forem subtraídos de iguais então os restantes são iguais. NC3

 

Nota:
Estas aplicações em java foram criadas com o programa Cinderella.

Cinderella é um programa destinado a fazer geometria no computador. Está a partir de agora disponível em português, em particular nas escolas portuguesas. Este fórum interactivo pretende ser um instrumento de comunicação para a troca de ideias e experiências entre os seus utilizadores.

 

     
 

Proposição 1,
ao alcance de cada um

 
 

Elementos de Euclides
Livro I
Proposição 1
(ao alcance de cada um)

Sobre um segmento de recta dado, construir um triângulo equilátero.

Por favor habilite Java para uma construção interativa (com Cinderella). Por favor habilite Java para uma construção interativa (com Cinderella). Por favor habilite Java para uma construção interativa (com Cinderella).

 

 

 

 

Depois de ter lido a demonstração e manipulado a construção, é a sua vez de criar a construção com régua não graduada e compasso.

 

 

     

 

Apêndice

 

Onde as circunferências se intersectam

 
 

Porque é que o ponto C existe?

Near the beginning of the proof, the point C is mentioned where the circles are supposed to intersect, but there is no justification for its existence. The only one of Euclid's postulate that says a point exists the parallel postulate, and that postulate is not relevant here. Thus, there is no assurance that the point C actually exists. Indeed, there are models of geometry in which the circles do not intersect. Thus, other postulates not mentioned by Euclid are required. In Book III, Euclid takes some care in analyzing the possible ways that circles can meet, but even with more care, there are missing postulates.

David E. Joyce, em: http://aleph0.clarku.edu/~djoyce/java/elements/bookI/propI1.html


Será ainda interessante consultar a ligação anterior para apreciar as seguintes críticas:

- Porque é [ABC] uma figura plana?
- Porque é que [ABC] contém um triângulo equilátero?


<josemiguel> Será que a figura desempenha aqui um papel importante, ou não?
<Susana_Rainho> a prova deverá ser independente da figura
<Moura> A figura é um exemplo que sustenta o problema?
<Carla_Lopes> a figura ajuda a entnder
<josemiguel> pois é Susuna, deveria. Mas com Euclides isso não acontece. Só mais tarde com Hilbert
<josemiguel> muitas vezes a prova precisa da figura
<Susana_Rainho> apercebi-me disso quando estive a fazer o trabalho 1
<Paulo__Dias_> Recordem-me: segmentos congruentes=com o mesmo comprimento?
<Amaral> Para ilustrar o raciocínio, apenas.
<josemiguel> isso mesmo, tb era para isso o trab 1
<Amaral> Geometricamente iguais (não orientados).
<Carla_Lopes> se não há imagem não há um caminho real
<josemiguel> não temos nada na axiomática de euclides, que nos garanta, por exemplo, que o ponto E seja a intersecção das duas circunferências
<Amaral> Sim, é verdade.
<RAUL> Acredito
<josemiguel> o mesmo se passava na construção no trab 1
<Carla_Lopes> sim
<Amaral> Exactamente.
<josemiguel> por isso, as figuras aqui eram importantes
<josemiguel> essa é uma das falhas apontadas à axiomática de euclides, mas não é isso que perde a sua importância

Extracto do log da sessão 3, em 8 de Outubro de 2003

 

 

Existem duas escolhas para o ponto C, mas uma chega...

Mas, ...

 

 

Por favor habilite Java para uma construção interativa (com Cinderella).
Geometria Euclidiana

 

Por favor habilite Java para uma construção interativa (com Cinderella).
Geometria Hiperbólica

 

 
     
 

Postulado n, Definição m, Axioma p, ... ???

 
 

Axiomas, Postulados e Definições.
Quantos? Quantas?

Como acima foi referido, Euclides, no livro Elementos, tomou como base cinco axiomas e cinco postulados geométricos e tentou deduzir todas as suas quatrocentos e sessenta e cinco proposições dessas dez afirmações.

Quando consultamos os primeiros princípios considerados na versão portuguesa de 1855 (tradução de Angelo Brunelli) deparamo-nos com valores totalmente diferentes. O mesmo acontece quando consideramos a versão de Byrne.

O que se passa?

Comparando os enunciados (com alguma liberdade) dos postulados e dos axiomas nas três versões aqui usadas (versão portuguesa de 1855, de Byrne e de Joyce), podemos observar as conclusões registadas na tabela à direita.


[20:20] <Amaral> Já agora, quando se refere Def., NC, Post, é usual referenciar pela versão mais antiga como a do Joyce, etc?
...
[20:20] <josemiguel> sim Amaral, essa é a referência
...
[20:21] <Amaral> A do Byrne é muito semelhante, se não igual, à portuguesa de 1855.
[20:21] <josemiguel> porque o Joyce fez mais que traduzir e usar as melhores fontes e várias
...
[20:22] <josemiguel> não conheco a de Byrne, mas pode ter "fontes" comuns com a pt
...
[20:23] <josemiguel> penso que as fontes da pt e as de Joyce não são bem as mesmas
[20:23] <josemiguel> Foram percorridos outros caminhos
[20:23] <Amaral> Pois não.
...
[20:24] <josemiguel> por isso eu uso sempre a de Thomas Heath que é a que o Joyce colocou on-line
[20:24] <josemiguel> além disso os livros da Dover são excelentes
[20:25] <Amaral> Sim. Mas a tradição portuguesa parece ser outra, pelo que o 5.º axioma (famoso) nunca é bem identificado, por exemplo.
[20:26] <Amaral> Postulado, digo.
[20:27] <josemiguel> isso mesmo, já pelas definições apercebemo-nos que os "caminhos" foram outros
...
[20:28] <Amaral> Na de 1855 aparece como axioma 12.

Extracto do log da sessão 3, em 8 de Outubro de 2003

 

 

Elementos, o tratado clássico de geometria escrita por Euclides, é usado como um livro de texto há mais de 1.000 anos na Europa ocidental.

Uma versão árabe apareceu no fim do oitavo século, a primeira versão impressa foi produzida em 1482 por Erhard Ratdolt (em Latim, usando o texto supostamente traduzido do Árabe por Adelard of Bath no séc. XII, cuja fonte parece ter sido uma tradução Árabe de al-Hajjaj feita do Grego) e, desde então, os Elementos ultrapassaram mais de 2.000 edições.

 

As ligações seguintes são relativas a algumas dessas edições:

 

 Página da 1.ª edição impressa (em Latim) dos Elementos, pelo alemão Erhard Ratdolt, em 1482.

 

 

 

 

Estudo comparativo de postulados e axiomas

Versão portuguesa de 1855 Versão de Byrne Versão de Joyce
Post. 1 Post. 1 Post. 1
Post. 2 Post. 2 Post. 2
Post. 3 Post. 3 Post. 3
Ax. 1 Ax. 1 CN 1
Ax. 2 Ax. 2 CN 2
Ax. 3 Ax. 3 CN 3
Ax. 4 Ax. 4 -
Ax. 5 Ax. 5 -
Ax. 6 Ax. 6 -
Ax. 7 Ax. 7 -
Ax. 8 Ax. 8 CN 4
Ax. 9 Ax. 9 CN 5
Ax. 10 Ax. 10 -
Ax. 11 Ax. 11 Post. 4
Ax. 12 Ax. 12 Post. 5
CN é equivalente a Axioma

 

Fontes

Versão portuguesa de 1855 Versão de Byrne Versão de Joyce
Em Portugal, publicou Angelo Brunelli em 1768 uma tradução na nossa língua dos seis primeiros livros, do undecimo e do duodecimo. Para esta tradução serviu-se da versão latina de Frederico Comandino e fê-la seguir de algumas notas com que Roberto Sinson tinha ilustrado esta versão Provavelmente uma versão em língua inglesa, por exemplo, "Euclides Elements of Geometry: The first VI Books", de Thomas Rudd.

Será?

O texto desta versão dos Elementos de Euclides é semelhante à edição de Heath, que a traduziu da edição definitiva em Grego de Heiberg, mas de forma menos literal para a tornar mais clara.
Ver Ver Ver

 

 
     
 

Alguma referência bibliografia

 
 

[1] Struik, J. Dirk, História Concisa das Matemáticas, Ciência Aberta, n.º 33, Gradiva, pág 76

[2] http://www-groups.dcs.st-and.ac.uk/~history/Mathematicians/Euclid.html

[3] http://www.acmi.net.au/AIC/EUCLID_BIO.html

[4] http://www.obkb.com/dcljr/euclid.html#def

[5] http://www.matematica.br/historia/euclides.html

[A] Davis, Philip J. e Hersh, Reuben, A Experiência Matemática, Ciência Aberta, n.º 75, pág. 299-301

[B] Davis, Philip J. e Hersh, Reuben, A Experiência Matemática, Ciência Aberta, n.º 75, pág. 3001-302

[C] Davis, Philip J. e Hersh, Reuben, A Experiência Matemática, Ciência Aberta, n.º 75, pág. 303-309

[D] Davis, Philip J. e Hersh, Reuben, A Experiência Matemática, Ciência Aberta, n.º 75, pág. 309-310

[E] http://ce.eng.usf.edu/pharos/alexandria/history/ptolemaic.html

 

 

 

 

 


     

 

Actualizada em
 15-10-2003