Acção de Formação a Distância PROF2000
AF-18 - 2003

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Círculo de Estudos
Episódios da História da Matemática na Antiga Grécia:
Trissecção do Ângulo e Duplicação do Cubo

Formando
António Manuel Marques do Amaral
 E-mail: amma@mail.prof2000.pt
    
Página pessoal: http://www.prof2000.pt/users/amma



Resolução de Trabalho 3

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A Concóide de Nicomedes e a Trissecção do Ângulo
Trabalho 3


|Trissecção do Ângulo| |A Concóide de Nicomedes| |Comentários|

 

Parte A - Trissecção do Ângulo

 

Resolução da Ficha de Trabalho

 

No trabalho 2 foi proposto que construíssemos uma actividade a partir de um conteúdo programático especifico. Para este trabalho, a actividade já está elaborada e pretende-se discutir a sua resolução e pertinência. Para isso, o formador propôs que considerássemos uma ficha de trabalho com a trissecção do ângulo, elaborada por Carlos Correia de Sá (Professor da FCUP que tem realizado várias "comunicações" no âmbito da História da Matemática, para professores dos ensinos básico e Secundário) e distribuída como actividade aos participantes de uma sessão prática no ProfMat - Encontro Nacional de Professores de Matemática.

Ficha de trabalho com a trissecção do ângulo

Considere-se um ângulo agudo com vértice B e, por um ponto A dum dos seus lados, tracem-se uma paralela e uma perpendicular ao outro lado; seja C o ponto de intersecção do segundo lado com a recta perpendicular. Insira-se um segmento de recta DE, de comprimento duplo do de AB, entre essas duas rectas, de tal modo que o ponto B esteja no prolongamento de DE. Seja H o ponto médio de DE.

 

   

Carlos Correia de Sá

Licenciou-se em Matemática Pura pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e doutorou-se em História da Matemática pela Universidade de Birminghan (Reino Unido). Actualmente é Professor Auxiliar no Departamento de Matemática Pura da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.

 


Ficha de Trabalho

 

 


     
 

Alínea a)

 

a)

Enuncie o 5.° postulado do primeiro livro dos Elementos de Euclides.

O 5.º postulado do primeiro livro dos Elementos de Euclides, pode ser enunciado da seguinte forma:

Se uma linha recta incidir em duas linhas rectas e fizer os ângulos internos do mesmo lado menores do que dois ângulos rectos, as duas linhas rectas, se prolongadas indefinidamente, encontram-se do lado em que os ângulos são menores do que dois ângulos rectos.

 

   


O quinto postulado de Euclides

 


     
 

Alínea b)

 

b)

Com base neste enunciado, mostre que os ângulos CBD e AED são iguais.

A linha recta BE ao incidir nas rectas AE e CB, define dois pares de ângulos suplementares: os ângulos AED e DEP, e CBD e DBQ, respectivamente.

Vamos admitir que os ângulos CBD e AED não são iguais.

  • 1.ª hipótese: o ângulo CBD é menor que o ângulo AED.

Nesta circunstância, a soma dos ângulos CBD e DEP é inferior a dois rectos, pelo que, de acordo com o postulado 5,  as rectas AE e BC se encontrariam do lado destes ângulos. O que é absurdo, pois por construção as rectas AE e BC são paralelas. Logo, não é verdade que o ângulo CBD é menor que o ângulo AED.

  • 2.ª hipótese: o ângulo CBD é maior que o ângulo AED.

Nesta circunstância, a soma dos ângulos AED e DBQ é inferior a dois rectos, pelo que, de acordo com o postulado 5,  as rectas AE e BC se encontrariam do lado destes ângulos. O que também é absurdo, pois por construção as rectas AE e BC são paralelas. Logo, também não é verdade que o ângulo CBD é maior que o ângulo AED.

Portanto, não sendo diferentes, os ângulos CBD e AED são iguais.

 

   

Se uma linha recta incidir em duas linhas rectas e fizer os ângulos internos do mesmo lado menores do que dois ângulos rectos, as duas linhas rectas, se prolongadas indefinidamente, encontram-se do lado em que os ângulos são menores do que dois ângulos rectos.

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5.º Postulado de Euclides

 


     
 

Alínea c)

     


 

c)

Enuncie o teorema que permite concluir que o segmento de recta HA é igual aos segmentos de recta HD, HE e AB. A que matemático da antiga Grécia é usualmente associada a descoberta deste resultado?

Por construção, o ângulo CAE é recto. Consequentemente, o triângulo [ADE] é rectângulo em A. Logo, este triângulo é inscritível numa circunferência de diâmetro [DE]. Ora, como é dado que H é o ponto médio de [DE], a circunferência considerada é c1, de centro H e que contém os pontos A, D e E:

Como o segmento inserido [DE] tem comprimento duplo do de [AB] (é um dado), então são iguais os três segmentos [AB], [HD] e [HE], pois H é o ponto médio de [DE].
Sendo os segmentos [HA], [HD] e [HE] raios da mesma circunferência, então são iguais entre si (Def.15).
Ora, como os segmentos [AB] e [HA] são iguais ao segmento [HD], então são
iguais entre si, pois coisas iguais a uma terceira são iguais entre si (NC1). Logo, [HA] é igual aos segmentos de recta [HD], [HE] e [AB].

A descoberta de que um ângulo recto se pode inscrever numa semicircunferência é tradicionalmente atribuída a Tales de Mileto (c 624 a.C - 547 a.C). Passemos a ler as palavras do próprio Dr. Carlos Sá:

Os historiadores estão de acordo em situar o começo da actividade matemática grega na Jónia. Esta região da Ásia Menor teve contactos comerciais com o Egipto e com a Mesopotâmia pelo menos desde o século VII a.C., mas não está provado que, por virtude desses contactos, a matemática grega tenha evoluído a partir das matemáticas orientais. Na opinião de alguns historiadores, a aritmética e a geometria gregas são o natural prosseguimento dos saberes congéneres egípcios e mesopotâmicos. Para outros, pelo contrário, a matemática grega é uma manifestação cultural de profunda originalidade, com motivações, objectivos e métodos novos.

O primeiro nome dum grego associado à matemática é o de Tales de Mileto, que terá vivido na primeira metade do século VI a.C.. O relato histórico de Eudemo-Proclo apresenta-o como tendo introduzido, na Grécia, a geometria (ou medida da terra) praticada no vale do Nilo:

Tales, que tinha estado no Egipto, foi o primeiro a trazer essa teoria para a Grécia; ele próprio descobriu muitas coisas e ensinou os princípios de muitas delas aos seus sucessores, tratando umas de modo mais geral e outras de modo mais sensível.

A afirmação de Proclo de que Tales «ensinou» geometria «aos seus sucessores» leva a associar o sábio de Mileto à criação, no século VI a.C., duma escola jónica de matemática.

Para além da previsão dum eclipse solar e da medição da altura duma pirâmide (ou dum obelisco) no Egipto, feitos que teriam impressionado profundamente os seus contemporâneos, a tradição atribui a Tales a descoberta de que a soma dos ângulos internos de qualquer triângulo vale dois rectos, de que os ângulos da base de qualquer triângulo isósceles são iguais, de que os ângulos que se podem inscrever em semicircunferências são os rectos e do caso ângulo-lado-ângulo de congruência de triângulos.

Estes resultados revelam preocupações intelectuais bem diferentes das dos egípcios e dos mesopotâmicos. Não são enunciados de meras regras práticas aplicadas a casos particulares, mas sim formulações gerais de índole teórica. Certamente que seria apresentado algum tipo de justificação para os resultados geométricos obtidos, embora não seja de crer que Tales ou algum dos seus contemporâneos estivesse em condições de fornecer uma demonstração de qualquer delas. É natural supôr que a argumentação fosse uma repetição aproximada do processo de descoberta, com grande predomínio da intuição visual sobre a dedução lógica.

HISTÓRIA DA MATEMÁTICA,
Maria Fernanda Estrada, Carlos Correia de Sá,
João Filipe Queiró, Maria do Céu Silva e Maria José Costa,
Universidade Aberta, 2000

 

   

 


Tales de Mileto
(c 624 a.C - 547 a.C)

Para além da previsão dum eclipse solar e da medição da altura duma pirâmide (ou dum obelisco) no Egipto, feitos que teriam impressionado profundamente os seus contemporâneos, a tradição atribui a Tales a descoberta de que a soma dos ângulos internos de qualquer triângulo vale dois rectos, de que os ângulos da base de qualquer triângulo isósceles são iguais, de que os ângulos que se podem inscrever em semicircunferências são os rectos e do caso ângulo-lado-ângulo de congruência de triângulos.


Os ângulos que se podem inscrever em semicircunferências são os rectos.

Por favor habilite Java para uma construção interativa (com Cinderella).

 

 

 

 


     
 

Alínea d)

     


 

d)

Enuncie o teorema que permite concluir que <ABH = <AHB e que <HAE = <HEA.

Como vimos, os segmentos [AH] e [HE] são iguais. Logo, o triângulo [AHE] é isósceles.
Também, os segmentos [AB] e [AH] são iguais. Logo, o triângulo [ABH] também é isósceles.

Ora, como parece ter dito Tales, os ângulos da base de qualquer triângulo isósceles são iguais (I.5).
Logo:

  • no triângulo [AHE], os ângulos da base, HAE e HEA, são iguais;

  • no triângulo [ABH], os ângulos da base, ABH e AHB, são iguais.

 

   

Os ângulos da base de qualquer triângulo isósceles são iguais.

Por favor habilite Java para uma construção interativa (com Cinderella).

Num triângulo, a lados iguais opõem-se ângulos iguais.

 


     
 

Alínea e)

     


 

e)

Conclua que <DBC é a terça parte de <ABC.

O ângulo AHB é um ângulo externo do triângulo [AHE], logo é igual à soma dos ângulos HAE e HEA, os internos não adjacentes (I.32).

Mas, os ângulos ABH e AHB são iguais, logo o ângulo ABH é também igual à soma dos ângulos HAE e HEA.

Mas, também já vimos (em a) e c)) que os ângulos HAE, HEA e DBC são iguais entre si.

Logo:

  • o ângulo ABH é o dobro do ângulo DBC

  • e, consequentemente, o ângulo DBC é a terça parte do ângulo ABC.

 

   

Um ângulo externo dum triângulo é igual à soma dos ângulos internos não adjacentes.

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A soma dos ângulos internos de um triângulo é igual a dois rectos.
(Porquê?)

 

 
 

As ilustrações

     


 

As figuras utilizadas na ilustração da resolução da ficha de trabalho foram criadas com  The Geometer´s Sketchpad, sendo a inserção do segmento [DE] auxiliada com a concóide de Nicomedes. Com base nessa construção, foi criada esta animação JavaSketchpad onde poderá «trissectar» o ângulo ABC.

Nota: A concóide não é aqui visível de forma significativa, contrariamente ao que acontece no ficheiro GSP.


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Clique em X para limpar o trcejado

 

   

 

Nota;
No sketch ao lado, graças à versatilidade do GSP, a concóide construída não foi definida pela régua AC, pelo polo B e por uma circunferência de raio 2AB e centro (D) sobre a régua.
O leitor, se assim o desejar, poderá descobrir quais foram esses elementos.
Este ficheiro GSP, contém agora as duas versões da mesma coincóide, que serviu para fazer a imagem considerada na sub-secção  abaixo: "A inserção do segmento [DE]"

 

 
     

 

Parte B - A Concóide de Nicomedes

 

Construção por nêusis

 
 

De acordo com a resolução acima, o problema da trissecção dum ângulo agudo fica resolvido se soubermos inserir o segmento [DE] (duplo de [AB]) entre as rectas AC e AA' e apontado para o ponto B. Desta forma, o problema da trissecção do ângulo fica reduzido a um outro problema, que os geómetras gregos designaram por problema de construção por nêusis.

Os geómetras gregos não se limitavam à utilização da régua e do compasso, segundo o método euclideano. Por vezes, viam-se na necessidade de recorrer a construções que não conseguiam reduzir ao traçado e ao prolongamento de rectas e ao traçado de circunferências e que, portanto, exigiam instrumentos diferentes, não se fundamentando nos três primeiros postulados dos Elementos de Euclides.

Uma maneira extremamente fácil de executar a construção pretendida (a inserção do segmento [DE]) é, por exemplo, com uma régua graduada onde se marca a medida pretendida. Também é possível executar a construção com outros instrumentos mecânicos, que envolvem o traçado de curvas planas superiores e resolvem o problema de nêusis ao qual o problema da trissecção pode ser reduzido.


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Animação JavaSketchpad realizada com base numa contribuição de Arsélio Martins ---» tri_neusis1

 

 

   

Construção por nêusis

Dados um ponto P, um segmento de recta s e duas linhas L1 e L2, a construção de dois pontos A e B tais que A, B e P sejam colineares, os segmentos de recta [AB] e s tenham o mesmo comprimento, A esteja sobre L1 e B esteja sobre L2 diz-se uma construção por nêusis (ou construção de tipo nêusis). Trata-se, portanto, de inserir entre as linhas L1 e L2 um segmento de recta igual a s e de tal modo que P esteja ou sobre ele ou no seu prolongamento.

 

 
     
 

A concóide

 

 

Uma dessas curvas é a concóide de Nicomedes (c 280 a.C - 210 a.C.), que pode ser obtida com um instrumento mecânico como o representado a seguir:

 

Animação

Dim. em cm 62 x 60 x 3 Animar:  
Il perno M , fissato su un’asta a, scorre lungo una fenditura rettilinea s (base della concoide); l’asta a, dotata di scanalatura, è costretta a passare per il perno O, fissato sul piano del modello ad una distanza h da s. Ogni coppia di punti P e Q dell’asta, simmetrici rispetto ad M, descrive una concoide la cui forma dipende dalla distanza d dei punti P e Q da M (d=intervallo della concoide). La concoide è costituita da due rami separati dalla retta s, il punto O è un nodo se d>h una cuspide se d=h, un punto isolato se d<h. In questo compasso i parametri d ed h sono prefissati.

Retirado de http://www.museo.unimo.it/theatrum/macchine/079ogg.htm

centro museo di storia naturale e della strum. scientifica

 

 

 

Concóide de uma recta

Um caso particular, como ilustra a animação seguinte, é a concóide de uma recta:

  • considere-se uma recta r;
  • um ponto O exterior à recta;
  • e uma circunferência C cujo raio seja igual à distância k (previamente definida) e com o seu centro sobre a recta r.

 

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Ficheiro GSP

 

Consideremos a circunferência a mover-se ao longo da recta r (designada por Nicomedes como régua), isto é, sempre com o centro sobre a recta. Seja, ainda a recta que une o ponto O (designado por Nicomedes por polo) ao ponto P. Os pontos Q1 e Q2, de intersecção desta recta com a circunferência, quando esta se move, desenham os dois ramos da concóide.

A curva concóide tem dois ramos e, consoante a relação entre a distância predefinida k e a distância d, entre o ponto O e a régua, (k<d, k=d, k>d) assim obtemos uma concóide de diferente tipo (verifique na animação).

 

 

 

 


Nicomedes
(c 280 a.C - 210 a.C.)

 

Segundo parece, Nicomedes inventou a concóide (curva em forma de concha), para resolver quer o problema da trissecção do ângulo quer o problema da duplicação do cubo.
"Vários comentadores antigos relacionam Nicomedes (séculos II-III d.C.) com a invenção da concóide. Os mais importantes são Papo de Alexandria (séculos III-IV d.C.), Proclo de Lícia (século V d.C.) e Eutócio de Áscalon (século VI d.C.)." ([S], p. 4).
Ao acreditar nas afirmações de Proclo, ao comentar a proposição de Euclides relativa à bissecção do ângulo (Elementos I, 9) na sua obra Comentário ao Primeiro Livro dos Elementos de Euclides, (cf. [Pr]; em [Ver1], p. 233), o problema da trissecção do ângulo deu origem à invenção de mais uma nova curva - a concóide.
No livro IV da Colecção Matemática, Papo dá a definição de concóide e enuncia algumas das suas propriedades estabelecidas por Nicomedes e na proposição 23 explica como se pode utilizar a concóide para efectuar certa construção por nêusis, apresentando de seguida a solução de Nicomedes para o problema da duplicação do cubo.
Papo afirma21 (cf. [P]; em [Ver3], I, p. 187) que a concóide se pode descrever com toda a facilidade mecanicamente por um aparelho simples que Nicomedes imaginou. É ilustrativa a imagem à esquerda, de um mecanismo para desenhar a concóide de uma recta.

 Trissecção do Ângulo e Duplicação do Cubo: as Soluções na Antiga Grécia;
José Miguel Sousa

 

Concóide de uma curva

Considere-se uma curva S qualquer, um ponto fixo O, exterior à curva, e uma dada distância k.
Trace-se uma recta passando por O e encontrando a curva no ponto P. Se Q1 e Q2 forem pontos sobre a recta OP tais que
k = Q1P = Q2P   então Q1 e Q2 desenham a concóide da curva em causa em relação ao ponto fixo O. Refira-se que a concóide de uma curva varia consoante o ponto fixo escolhido, bem como a distância k, previamente considerada.


Concóide de uma circunferência

Por favor habilite Java para uma construção interativa (com Cinderella).

Por favor habilite Java para uma construção interativa (com Cinderella).

Ficheiro Cinderella

 

 
     
 

A inserção do segmento [DE]

 
 

Vamos agora ver como podemos utilizar a concóide de Nicomedes para efectuar a trissecção do ângulo, ou seja, resolver o respectivo problema de nêusis, colocado acima. 

Dado um ângulo agudo A''BB', a trissectar, podemos construir a concóide pretendida do seguinte modo: 

  1. Por um ponto A dum dos lados do ângulo, tiram-se uma paralela (AA') e uma perpendicular (AC) ao lado BB', designando por C a intersecção da perpendicular com o lado BB'.

  2. Traça-se a concóide de Nicomedes definida pela régua AC, pelo polo B e por uma circunferência de raio 2AB e centro (D) sobre a régua.

Seja E a intersecção do ramo da concóide, no lado oposto do polo, com a recta AA', paralela a BB', que passa por A. Assim, utilizando a concóide de Nicomedes, inserimos o segmento [DE], duplo do segmento [AB], entre as rectas AC e AA' e apontado para o ponto B.

 

 

 

 

 


     

 

Comentários

 

O programa do 3.º ciclo

 
 

No que concerne à Geometria no programa de Matemática do 3.º ciclo, sumariamente, podemos recordar:

  1. Programa de Matemática do 3.º Ciclo
    (Ensino Básico. 3º ciclo. Programa de Matemática. Plano de organização do ensino-aprendizagem. Vol. II. Lisboa: Imprensa Nacional, 1991)
  2. Currículo Nacional do Ensino Básico - MATEMÁTICA-Competências Específicas

 

Programa de Matemática do 3.º Ciclo


7.º Ano

G 7.1. Semelhança de figuras
  • Ampliação e redução de figuras
    - construção à escala
  • Polígonos semelhantes
    - razão de semelhança
    - noção de forma
  • Ampliar e reduzir uma figura, dada a razão, relacionando os conceitos de semelhança e proporcionalidade.
  • Calcular distâncias reais a partir da sua representação em plantas, mapas, etc., e determinar alturas de árvores, edifícios, etc.
  • Fazer construções usando instrumentos de medição e desenho.
G 7.2. Do espaço ao plano: sólidos, triângulos e quadriláteros
  • Sólidos com faces triangulares e quadrangulares
    - Posições relativas de rectas e planos
  • Construção de triângulos
    - Desigualdade triangular
    - Critérios de igualdade de triângulos
  • Ângulos verticalmente opostos
  • Ângulos de lados paralelos
    - Soma dos ângulos internos de um triângulo
    - Ângulo externo de um triângulo
  • Propriedades dos paralelogramos
  • Eixos de simetria em triângulos e quadriláteros
  • Áreas e volumes de sólidos
    - Volume da pirâmide
    - Volume do cone
  • Identificar em situações concretas, posições relativas de rectas e planos (planos paralelos e rectas complanares, rectas paralelas e rectas concorrentes com um plano, rectas contidas num plano).
  • Construir triângulos descobrindo critérios de igualdade, relações entre os lados, relações entre os ângulos e entre lados e ângulos, quer no mesmo triângulo, quer em triângulos diferentes.
  • Construir quadriláteros a partir de condições dadas, e usar as propriedades dos paralelogramos na justificação de raciocínios.
  • Sistematizar conhecimentos básicos de Geometria e resolver problemas geometricamente, analisando figuras, efectuando medições, discutindo estratégias, justificando raciocínios e interpretando resultados.
  • Determinar áreas e volumes de sólidos e de objectos da vida real, efectuando medições em situações diversificadas, estimando uma margem de erro.
8.º Ano
G 8.1. Decomposição de figuras; Teorema de Pitágoras
  • Decomposição de polígonos em triângulos e quadriláteros
    - Decomposição de um triângulo por uma mediana
    - Decomposição de um triângulo rectângulo pela altura referente à hipotenusa
    - Equivalência de polígonos; área do trapézio
  • Teorema de Pitágoras
    - Demonstração por decomposição de um quadrado
  • O Teorema de Pitágoras e o espaço
    - Perpendicularidade entre recta e plano
    - Perpendicularidade de planos
    - Diagonal do paralelepípedo rectângulo
  • Decompor e compor figuras geométricas obtendo outras, relacionando-as entre si.
  • Resolver problemas no plano e no espaço aplicando o teorema de Pitágoras.
  • Identificar rectas perpendiculares a planos e planos perpendiculares a planos em modelos concretos.
  • Relacionar entre si os triângulos obtidos na decomposição de um triângulo rectângulo pela altura referente à hipotenusa, ou na decomposição de um triângulo qualquer por uma das suas medianas.
  • Relacionar entre si elementos e propriedades de figuras geométricas, fazer conjecturas e experiências. Justificar raciocínios.
G 8.2. Semelhança de triângulos
  • Critérios de semelhança de triângulos
  • Usar a semelhança de triângulos na análise de figuras, na resolução de problemas e justificação de raciocínios, relacionando os elementos homólogos, as áreas e os perímetros.
  • Construir figuras geométricas utilizando instrumentos de medição e desenho, e descrever por palavras suas os processos usados na construção.
G 8.3. Lugares geométricos
  • Problemas envolvendo distância entre dois pontos
    - Circunferência
    , círculo
    - Superfície esférica, esfera
    - Mediatriz de um segmento de recta
    - Circunferência circunscrita
  • Conjunção de condições e intersecção de conjuntos
  • Resolver, através de construções, problemas envolvendo a noção de distância entre os dois pontos descrevendo o processo utilizado, justificando o raciocínio feito.
 G 8.4. Translações
  • Translações
    - Imagem de uma figura numa translação dada
    - Propriedades das translações
    - Vector
    - Composição de translações; adição de vectores
  • Identificar translações na vida quotidiana em papéis, tecidos ou frisos decorativos...
  • Efectuar translações em papel quadriculado ou associando a translação a um vector.
  • Reconhecer propriedades das translações a compor translações relacionando com a adição de vectores.
  • Fazer construções geométricas com instrumentos de medição e desenho.
9.º Ano
G 9.1. Circunferência e polígonos. Rotações
  • Ângulos ao centro e arcos correspondentes
  • Ângulo inscrito num arco de circunferência
  • Consequências das simetrias da circunferência
  • Polígonos inscritos; polígonos regulares
  • Áreas de polígonos regulares
  • Áreas e volumes de prismas e pirâmides regulares, cilindros e cones
  • Rotações
  • Isometrias
  • Relacionar amplitudes de ângulos e arcos, e determinar amplitudes de ângulos excêntricos.
  • Estabelecer relações entre arcos, cordas, tangentes e raios recorrendo às simetrias da circunferência.
  • Determinar amplitudes de ângulos internos e externos de polígonos convexos, e identificar rotações de polígonos regulares em torno do seu centro.
  • Identificar diferentes isometrias comparando as suas propriedades.
G 9.2. Trigonometria do triângulo rectângulo
  • Razões trigonométricas de ângulos agudos
    - Seno
    - Co-seno
    - Tangente
  • Relações entre as razões trigonométricas
    - Sen2 a + cos2 a = 1
    - Tg a = sen a / cos a
  • Tabelas de valores naturais e calculadoras
  • Determinar razões trigonométricas de um dado ângulo agudo, por construção, utilizando tabelas ou calculadoras, ou conhecida outra razão trigonométrica do mesmo ângulo.
  • Procurar estratégias adequadas para determinar distâncias a locais inacessíveis, alturas de edifícios ...
G 9.3. Espaço - outra visão
  • Sólidos geométricos
    - Áreas e volumes
  • Representação no plano de rectas e planos do espaço
  • Critérios de:
    - Paralelismo de recta e plano
    - Paralelismo de planos
    - Perpendicularidade de recta e plano
    - Perpendicularidade de planos
  • Referência à geometria como construção hipotético-dedutiva
    - Axioma, teorema, demonstração
  • Resolver problemas referentes a áreas e volumes de sólidos geométricos, incluindo esferas.
  • Identifícar em modelos concretos posições relativas de rectas e planos, e fazer esboços que representem as diferentes situações possíveis.
  • Relacionar procedimentos da vida corrente com os critérios referentes à posição relativa de rectas e planos.
  • Distinguir axioma de teorema num determinado contexto.



MATEMÁTICA, Competências Específicas

Competência Matemática ao longo da educação básica

A predisposição para raciocinar matematicamente, isto é, para explorar situações problemáticas, procurar regularidades, fazer e testar conjecturas, formular generalizações, pensar de maneira lógica;

O gosto e a confiança pessoal em realizar actividades intelectuais que envolvem raciocínio matemático e a concepção de que a validade de uma afirmação está relacionada com a consistência da argumentação lógica, e não com alguma autoridade exterior;

A aptidão para discutir com outros e comunicar descobertas e ideias matemáticas através do uso de uma linguagem, escrita e oral, não ambígua e adequada à situação;

A compreensão das noções de conjectura, teorema e demonstração, assim como das consequências do uso de diferentes definições;

A predisposição para procurar entender a estrutura de um problema e a aptidão para desenvolver processos de resolução, assim como para analisar os erros cometidos e ensaiar estratégias alternativas;

A aptidão para decidir sobre a razoabilidade de um resultado e de usar, consoante os casos, o cálculo mental, os algoritmos de papel e lápis ou os instrumentos tecnológicos;

A tendência para procurar ver e apreciar a estrutura abstracta que está presente numa situação, seja ela relativa a problemas do dia-a-dia, à natureza ou à arte, envolva ela elementos numéricos, geométricos ou ambos;

A tendência para usar a matemática, em combinação com outros saberes, na compreensão de situações da realidade, bem como o sentido crítico relativamente à utilização de procedimentos e resultados matemáticos.


GEOMETRIA

Ao longo de todos os ciclos

Aptidão para realizar construções geométricas e para reconhecer e analisar propriedades de figuras geométricas, nomeadamente recorrendo a materiais manipuláveis e a software geométrico;

A aptidão para utilizar a visualização e o raciocínio espacial na análise de situações e na resolução de problemas em geometria e em outras áreas da matemática;

A compreensão dos conceitos de comprimento e perímetro, área, volume e amplitude, assim como e a aptidão para utilizar conhecimentos sobre estes conceitos na resolução e formulação de problemas;

A aptidão para efectuar medições e estimativas em situações diversas, bem como a compreensão do sistema internacional de unidades;

A predisposição para procurar e explorar padrões geométricos e o gosto por investigar propriedades e relações geométricas;

A aptidão para formular argumentos válidos recorrendo à visualização e ao raciocínio espacial, explicitando-os em linguagem corrente;

A sensibilidade para apreciar a geometria no mundo real e o reconhecimento e a utilização de ideias geométricas em diversas situações, nomeadamente na comunicação.


1.º ciclo

O reconhecimento de formas geométricas simples, bem como a aptidão para descrever figuras geométricas e para completar e inventar padrões;

A aptidão para realizar construções geométricas simples, assim como para identificar propriedades de figuras geométricas;

A compreensão do processo de medição e a aptidão para fazer medições e estimativas em situações diversas do quotidiano utilizando instrumentos apropriados.


2.º ciclo

A predisposição para identificar propriedades de figuras geométricas, nomeadamente em triângulos, em quadriláteros e em sólidos geométricos, bem como para justificar e comunicar os raciocínios efectuados;

A aptidão para realizar construções geométricas, nomeadamente ângulos e triângulos, e para descrever figuras geométricas;

A aptidão para resolver e formular problemas que envolvam relações entre os conceitos de perímetro e de área, em diversos contextos;

A aptidão para calcular áreas de rectângulos, triângulos e círculos, assim como volumes de paralelepípedos, recorrendo ou não a fórmulas, em contexto de resolução de problemas.


3.º ciclo

A aptidão para visualizar e descrever propriedades e relações geométricas, através da análise e comparação de figuras, para fazer conjecturas e justificar os seus raciocínios;

A aptidão para realizar construções geométricas, nomeadamente quadriláteros, outros polígonos e lugares geométricos;

A compreensão do conceito de forma de uma figura geométrica e o reconhecimento das relações entre elementos de figuras semelhantes;

A aptidão para resolver problemas geométricos através de construções, nomeadamente envolvendo lugares geométricos, igualdade e semelhança de triângulos, assim como para justificar os processos utilizados;

O reconhecimento do significado de fórmulas e a sua utilização no cálculo de áreas e volumes de sólidos e de objectos do mundo real, em situações diversificadas;

A predisposição para identificar transformações geométricas e a sensibilidade para relacionar a geometria com a arte e com a técnica;

A tendência para procurar invariantes em figuras geométricas e para utilizar modelos geométricos na resolução de problemas reais.

 

 

 

Sem pretensão de uma análise exaustiva e pormenorizada, penso que os destaques a amarelo e a cor-de-laranja (nesta secção) estão de alguma forma relacionados com as tarefas A e B, propostas neste trabalho. Os destaques a amarelo estão mais directamente ligados à tarefa A e os cor-de-laranja à tarefa B, ainda que nalguns casos se possam sobrepor ou a sua fronteira seja muito vaga.

   


Programa do 3º ciclo

 


Currículo Nacional do Ensino Básico
Competências Específicas
MATEMÁTICA

 

A Matemática no currículo do ensino básico

... As orientações relativas ao desenvolvimento da competência matemática ao longo dos três ciclos do ensino básico podem ser organizadas de diversos modos. Correndo o risco de não explicitar suficientemente a primazia a dar aos processos matemáticos em relação aos tópicos específicos vistos isoladamente, assim como às conexões que é forçoso estabelecer entre os vários domínios, optou-se, no entanto, por desenvolver os aspectos da competência matemática em quatro grandes domínios temáticos: Números e Cálculo; Geometria; Estatística e Probabilidades; Álgebra e Funções. Esta organização salienta que a competência matemática inclui a compreensão de um conjunto de noções matemáticas fundamentais e permite estabelecer uma ligação mais fácil aos temas centrais dos programas em vigor nos 2.º e 3.º ciclos, sendo ainda compatível com os blocos temáticos do programa do 1.º ciclo.

No entanto, a evolução dos programas num futuro próximo e, em particular, a sua transformação em orientações curriculares mais globais e menos prescritivas poderão criar condições favoráveis a uma posterior reorganização das competências específicas em torno dos processos matemáticos ou dos hábitos de pensamento matemático fundamentais.

Por outro lado, convém reafirmar que, a par da valorização de uma lógica de ciclo (em contraponto com a prática de programas por ano de escolaridade), a formulação de competências essenciais procura contribuir para uma mais adequada articulação entre os três ciclos do ensino básico. Isto significa que, embora constituindo referências nacionais para o trabalho em cada ciclo, as competências não podem ser encaradas como aprendizagens acabadas, ligadas a momentos bem determinados ou a oportunidades únicas. A aprendizagem da Matemática deve ser vista como um processo gradual e contínuo ao longo do ensino básico.


Currículo Nacional do Ensino Básico –
Competências Essenciais
Competências Específicas –
Matemática,
pág. 58

 

Experiências de aprendizagem

Tipos de experiências de aprendizagem

Resolução de problemas

A resolução de problemas constitui, em matemática, um contexto universal de aprendizagem e deve, por isso, estar sempre presente, associada ao raciocínio e à comunicação e integrada naturalmente nas diversas actividades. Os problemas são situações não rotineiras que constituem desafios para os alunos e em que, frequentemente, podem ser utilizadas várias estratégias e métodos de resolução – e não exercícios, geralmente de resolução mecânica e repetitiva, em que apenas se aplica um algoritmo que conduz directamente à solução. A formulação de problemas deve igualmente integrar a experiência matemática dos alunos.

Actividades de investigação

Numa actividade de investigação, os alunos exploram uma situação aberta, procuram regularidades, fazem e testam conjecturas, argumentam e comunicam oralmente ou por escrito as suas conclusões. Qualquer tema da matemática pode proporcionar ocasiões para a realização de actividades de natureza investigativa. Este tipo de actividades também é favorável à ligação da matemática com outras áreas do currículo.

Realização de projectos

Um projecto é uma actividade prolongada que normalmente inclui trabalho dentro e fora da aula e é realizada em grupo. Pressupõe a existência de um objectivo claro, aceite e compreendido pelos alunos, e a apresentação de resultados. Qualquer tema da matemática pode proporcionar ocasiões para a realização de projectos. Pela sua própria natureza, os projectos constituem contextos naturais para o desenvolvimento de trabalho interdisciplinar.

Jogos

O jogo é um tipo de actividade que alia raciocínio, estratégia e reflexão com desafio e competição de uma forma lúdica muito rica. Os jogos de equipa podem ainda favorecer o trabalho cooperativo. A prática de jogos, em particular dos jogos de estratégia, de observação e de memorização, contribui de forma articulada para o desenvolvimento de capacidades matemáticas e para o desenvolvimento pessoal e social. Há jogos em todas as culturas e a matemática desenvolveu muito conhecimento a partir deles. Além disso, um jogo pode ser um ponto de partida para uma actividade de investigação ou de um projecto.

Aspectos da história, do desenvolvimento e da utilização da matemática
Reconhecimento da matemática na tecnologia e nas técnicas

A matemática tem contribuído desde sempre para o desenvolvimento de técnicas e de tecnologias, mesmo quando não são necessários conhecimentos matemáticos para as utilizar. É importante que os alunos realizem actividades que ajudem a revelar a matemática subjacente às tecnologias criadas pelo Homem – por exemplo, instrumentos de navegação ou de redução e ampliação –, assim como a matemática presente em diversas profissões.

Realização de trabalhos sobre a matemática

A matemática e a sua história, os matemáticos e as suas histórias, integrados ou não na história da ciência e no desenvolvimento científico, são uma fonte de conhecimentos favoráveis à aprendizagem. Um trabalho sobre a matemática inclui a pesquisa e a organização de informação, a escrita e a apresentação. Na pesquisa para um trabalho desta natureza é relevante o recurso a fontes documentais e museológicas de tipos diversos. Na apresentação há vários tipos de suportes que podem ser utilizados, nomeadamente escritos, dramatizações, vídeos e informáticos.

Aspectos transversais da aprendizagem da matemática

Comunicação matemática

A comunicação inclui a leitura, a interpretação e a escrita de pequenos textos de matemática, sobre a matemática ou em que haja informação matemática. Na comunicação oral, são importantes as experiências de argumentação e de discussão em grande e pequeno grupo, assim como a compreensão de pequenas exposições do professor. O rigor da linguagem, assim como o formalismo, devem corresponder a uma necessidade sentida e não a uma imposição arbitrária.

Prática compreensiva de procedimentos

A prática de procedimentos não deve constituir uma actividade preparatória, repetitiva, isolada e sem significado; porém, uma prática compreensiva pode promover a aquisição de destrezas utilizáveis com segurança e autonomia. O cálculo mental, o domínio de um algoritmo, a utilização de uma fórmula, a resolução de uma equação, uma construção geométrica, a manipulação de um instrumento, entre muitos outros procedimentos, são destrezas úteis que se adquirem com prática desde que não seja descurada a sua compreensão e a sua integração em experiências matemáticas significativas.

Exploração de conexões

Uma componente essencial da formação matemática é a compreensão de relações entre ideias matemáticas, tanto entre diferentes temas de matemática como no interior de cada tema, e ainda de relações entre ideias matemáticas e outras áreas de aprendizagem (a música, as artes visuais, a natureza, a tecnologia, etc.). Actividades que permitam evidenciar e explorar estas conexões devem ser proporcionadas a todos os alunos. Um aspecto importante será o tratamento e exploração matemáticos de dados empíricos recolhidos no âmbito de outras disciplinas, nomeadamente as da área das Ciências Físicas e Naturais, a Geografia e a Educação Física.

Recursos
Utilização das tecnologias na aprendizagem da Matemática

Todos os alunos devem aprender a utilizar não só a calculadora elementar mas também, à medida que progridem na educação básica, os modelos científicos e gráficos. Quanto ao computador, os alunos devem ter oportunidade de trabalhar com a folha de cálculo e com diversos programas educativos, nomeadamente de gráficos de funções e de geometria dinâmica, assim como de utilizar as capacidades educativas da rede Internet. Entre os contextos possíveis incluem-se a resolução de problemas, as actividades de investigação e os projectos.

Utilização de materiais manipuláveis

Materiais manipuláveis de diversos tipos são, ao longo de toda a escolaridade, um recurso privilegiado como ponto de partida ou suporte de muitas tarefas escolares, em particular das que visam promover actividades de investigação e a comunicação matemática entre os alunos. Naturalmente, o essencial é a natureza da actividade intelectual dos alunos, constituindo a utilização de materiais um meio e não um fim.

Currículo Nacional do Ensino Básico – Competências Essenciais
Competências Específicas –
Matemática,
pág. 68-71

 

 


     
 

Sobre a ficha de trabalho

 
 

Relativamente à ficha de trabalho, penso que poderá ser uma actividade a desenvolver já com alunos do 3.º ciclo. No entanto, para uma maior amplitude na sua exploração dava a primazia a uma turma do 9.º anos, após o estudo da circunferência, pois na alínea c) está manifesto um conteúdo deste tema.

Alteraria a alínea a).
Enunciaria o 5.º Postulado de Euclides, após uma breve introdução à sua vida e obra (se nessa turma houvesse ainda essa necessidade) e solicitava aos alunos uma exploração geométrica (construção geométrica) do enunciado, tanto em construção estática como dinâmica.  Terminaria esta alínea, pedindo uma tentativa de redacção mais vulgar deste postulado (postulado de Playfair).

Na alínea b), face à alteração proposta no parágrafo anterior, frisaria que era para mostrar a igualdade usando o enunciado do postulado na forma de Euclides.
Na minha opinião, é esta a questão mais rica e mais difícil da ficha, pois a sua formulação leva a um tipo de raciocínio pouco habitual nos dias de hoje.

Relativamente à primeira parte da alínea c), talvez fossem de considerar algumas sugestões (pistas) no sentido de orientar os alunos na descoberta indispensável (caso alguns sentissem essa necessidade), por exemplo: "Qual é a amplitude do ângulo DAE?"; "O que é um ângulo inscrito?"; "Que arco compreende entre os seus lados um ângulo inscrito?".
Quanto à segunda parte desta questão, ficaria para exploração fora da aula através de alguma referência bibliográfica ou de ligações a páginas da Internet fornecidas pelo professor.
Talvez fosse pertinente fazer aqui algumas considerações (indicando alguns exemplos) sobre teorema, hipótese, tese, axioma e postulado, que serviriam também para a alínea seguinte.

Penso que nas alíneas d) e e) não haveria necessidade de qualquer adaptação.

Acrescentaria agora duas novas questões:

  • f) Utilizando régua, esquadro e compasso reproduz a construção fornecida no enunciado;

  • g) Certamente, inseriste o segmento de recta [DE] utilizando a régua graduada, isto é, utilizando o procedimento da animação seguinte (a animação JavaSketchpad realizada com base numa contribuição de Arsélio Martins ---» tri_neusis1 [ver acima]). Confirma.

    TEXTO: "De facto, esta foi uma das soluções encontradas...
    Uma dessas curvas é a concóide de Nicomedes, com a qual iremos contactar dentro em breve.

Este texto elucidaria o aluno sobre a geometria euclideana, as construções que são consideradas legítimas nesta geometria, a possibilidade de dividir alguns ângulos em três partes iguais, exemplificando com o de 90 graus, da impossibilidade da trissecção euclideana do ângulo arbitrário provada apenas no séc. XIX, que os antigos gregos procuraram a solução deste problema, mas que as tentativas de resolução não se limitaram a este período. Que o problema da trissecção dum ângulo agudo fica, portanto, resolvido se soubermos inserir o segmento [DE], isto é, que o problema da trissecção do ângulo fica reduzido a um outro problema, que os geómetras gregos designaram por problema de construção por nêusis. Que os geómetras gregos não se limitavam à utilização da régua e do compasso, segundo o método euclideano. Por vezes, viam-se na necessidade de recorrer a construções que não conseguiam reduzir ao traçado e ao prolongamento de rectas e ao traçado de circunferências e que, portanto, exigiam instrumentos diferentes, alguns dos quais mecânicos, produzindo desta forma algumas curvas especiais, que não circunferências.

 

 

 

 

Na minha opinião, a actividade proposta além de poder contribuir para uma revisão de alguns conceitos, tem um aspecto extremamente rico: a formulação de algumas questões é tão pouco habitual que, até a nós professores, fica a sensação de algum mistério. O que constituirá, certamente, uma situação não rotineira e um desafio para os alunos.

Esta ficha de trabalho poderá ser trabalhada perfeitamente numa aula.

Algumas das animações que figuram nesta coluna direita da página poderão constituir algumas ferramentas para a exploração/revisão de alguns conceitos.

 

 
     
 

Sobre a concóide

 
 

Feita a introdução a esta segunda etapa já na ficha de trabalho anterior, poder-se-ia considerar agora um enunciado que tivesse por base uma adaptação do constante na secção relativa à Parte B - A Concóide de Nicomedes. Esclarecer-se-ia o conceito de construção por nêusis e dar-se-ia uma ligação Internet (por exemplo, a indicada acima) para a tomada de conhecimento do compasso de Nicomedes e o primeiro contacto com a respectiva concóide. Seguidamente, descrever-se-ia o processo mecânico da construção da concóide e facultava-se a animação JavaSketchpad apresentada imediatamente acima.

Eis algumas questões que poderiam agora passar a ser colocadas:

  • Explora a a animação JavaSketchpad.
    Tenta criar no The Geometer's Sketchpad uma animação equivalente a esta.
  • Considera o ficheiro GSP.
    Constrói uma concóide que permita prolongar o lado [BC] no valor do comprimento do segmento [EF], a partir de C e perpendicularmente a AB.
    Explica o raciocínio que usaste para a construção que criaste.
  • Agora, considera o ângulo AVB definido no ficheiro GSP.
    Com o auxílio da concóide de Nicomedes constrói a trissectriz do ângulo AVB.
    Numa pequena composição, descreve o teu raciocínio.
  • Faz uma pesquisa e elabora uma pequena referência a Nicomedes e à trissecção do ângulo.

 

   

 

Esta segunda parte deve ser desenvolvida em grupos durante um período mais longo, requererá alguma disponibilidade dos alunos para além das horas curriculares, poderá/deverá ser dado acompanhamento e apoio aos alunos no Clube de Matemática e, por fim, os trabalhos serão entregues e apresentados em aula. Presume-se, também, que os alunos possuem já alguns conhecimentos básicos para a utilização do GSP.

 

 
     
 

Por fim

 


 

Uma outra possibilidade de exploração mais profunda e transversal deste assunto (partes A e B) seria (a meu ver mais rica) integrá-lo numa actividade de um pequeno projecto, onde poderiam concorrer, pelo menos, as disciplinas de Matemática, História, Inglês, Educação Tecnológica e TIC. O projecto a desenvolver poderia agora ser mais alargado, contemplando um enquadramento histórico da época de Nicomedes, do próprio e do problema da trissecção do ângulo, que incluiria também trabalho sobre textos em língua inglesa, a construção de um compasso de Nicomedes em madeira, fibra de vidro ou outro material mais conveniente e, ainda, a publicação/divulgação do projecto em formato electrónico na Página da Escola, além de uma ou mais apresentações/comunicações à população escolar a realizar no Auditório, aquando do Dia da Matemática, por exemplo.

Mesmo que a curva em causa não venha a ser integrada num futuro programa, julgo que se algumas destas ideias vierem a ser concretizadas não é por isso que virá o mal ao mundo, desde que continuemos felizes.

Esperemos que não haja qualquer rato a ouvir...

 

   

 

 

Actualizada em
 11-11-2003