Acção de Formação a Distância PROF2000
AF-18 - 2003

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Círculo de Estudos
Episódios da História da Matemática na Antiga Grécia:
Trissecção do Ângulo e Duplicação do Cubo

Formando
António Manuel Marques do Amaral
 E-mail: amma@mail.prof2000.pt
    
Página pessoal: http://www.prof2000.pt/users/amma


 

Resolução de Trabalho Final

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Da duplicação do quadrado à duplicação do cubo: Uma curta viagem pela História
Trabalho Final


Preâmbulo

Duplicação do quadrado:
|Ménon, de Platão|
|O papiro de Oxyrhynchus| |Quadraturas|

Duplicação do cubo: |Da duplicação do quadrado à redução de Hipócrates| |O esquadro de Platão|
|Menecmo e as secções cónicas|

 

Preâmbulo

 

Como fazer, como concretizar episódios da História da Matemática na sala de aula?

 
 
A matemática e a sua história, os matemáticos e as suas histórias, integrados ou não na história da ciência e no desenvolvimento científico, são uma fonte de conhecimentos favoráveis à aprendizagem. Um trabalho sobre a matemática inclui a pesquisa e a organização de informação, a escrita e a apresentação. Na pesquisa para um trabalho desta natureza é relevante o recurso a fontes documentais e museológicas de tipos diversos. Na apresentação há vários tipos de suportes que podem ser utilizados, nomeadamente escritos, dramatizações, vídeos e informáticos.

Currículo Nacional do Ensino Básico - Competências Específicas - MATEMÁTICA (pág. 69)


Actividades com uma perspectiva histórica humanizam o estudo da disciplina, mostrando a Matemática como ciência em construção e em constante interacção com outras ciências.

Proporcionam também excelentes oportunidades para pesquisa de documentação. A informação sobre a génese e o percurso de um conceito ao longo dos tempos e a sua relação com o progresso da humanidade pode fomentar, ou aumentar, o interesse pelo tema em estudo, ao mesmo tempo que constitui uma fonte de cultura. Segundo D. J. Struik, o autor do livro "História Concisa das Matemáticas", o uso da História da Matemática na aula é muito importante porque:

satisfaz o desejo de saber como se originaram e desenvolveram os assuntos em matemática;

o estudo dos autores clássicos pode proporcionar grande satisfação por si só, mas também pode ser útil no ensino e na investigação;

ajuda a compreender a nossa herança cultural, não apenas pelas aplicações que a matemática tem tido, e ainda tem, à astronomia, física e outras ciências, mas também pela relação ao que tem tido, e continua a ter, com campos tão variados como a arte, a religião, a filosofia e os ofícios;

oferece um campo de discussão comum com estudantes e professores de outras áreas;

permite temperar o ensino e as conversas com algumas peripécias.

Programa de MATEMÁTICA A, 10º ANO (pág. 13)

 

Como fazer, como concretizar episódios da História da Matemática na sala de aula?

Além do sábio conselho da coruja não sei adiantar quaisquer outras recomendações. Uma coisa julgo ter a certeza: é indispensável conhecer e estudar episódios da História da Matemática. Aproveitando alguns episódios referidos durante esta viagem de estudo proporcionada pelo Círculo de Estudos, foram elaboradas um conjunto de sugestões de actividades que, tendo por pano de fundo a História da Matemática, podem proporcionar o desenvolvimento de alguns conceitos matemáticos dos programas dos ensinos básico e secundário.

No corpo principal deste documento são dadas algumas informações e ligações a páginas sobre cada um dos episódios da História da Matemática seleccionados para pano de fundo do desenvolvimento da actividade, que poderão ser úteis para um maior aprofundamento ou possibilitar a tomada de consciência dele por parte de quem o não conhece.

As fichas de trabalho possuem um ano de escolaridade atribuído por defeito, mas é apenas uma mera indicação, pois algumas delas poderão ser aplicadas a outros anos de escolaridade mediante algumas adaptações e/ou complementos. Por falta de tempo para uma reflexão mais profunda, as fichas de trabalho nem sempre estão construídas de forma adequada ao desenvolvimento tradicional de actividades em sala de aula, requerendo algumas delas até um desenvolvimento temporal alargado e recursos nem sempre disponíveis em sala de aula típica.

Espero que este trabalho responda a algumas das expectativas e que possa servir de mero exemplo de integração de episódios da História da Matemática em contexto educativo, ou que, no mínimo, possa contribuir para a formação de um professor mais poderoso, melhor colocado para antecipar e responder a situações e necessidades da sala de aula, do que aquele sem acesso à História da Matemática como recurso.

 

   

 

History as a resource for the mathematics teacher
June Barrow-Green and John Fauvel

The question that arises is what connection there should be, or could be, between the knowledge which has accumulated about the historical development of mathematics as a human activity, and what happens in the mathematics classroom, in the experience of the mathematics learner. Our position is that history is an important resource for the mathematics teacher; that the teacher with access to this resource is an empowered teacher, better placed than the teacher without such access to anticipate and respond to the full range of classroom situations and needs.

Ver fonte

 

 

 

 

 

     


Duplicação do quadrado

 

Ménon, de Platão

 

Ménon é um dos diálogos de Platão, que coloca Sócrates em diálogo com o estudante Ménon, o qual pretende que Sócrates lhe explique o que é a virtude. Numa certa passagem do diálogo, Ménon pede ao mestre que lhe explique a razão da sua opinião sobre a aprendizagem. Platão, através de Sócrates, propõe que nada aprendemos, mas apenas nos recordamos de conceitos que já sabíamos através da nossa alma. Neste diálogo, Sócrates passa a demonstrar essa afirmação usando conceitos matemáticos.

Segundo David Fowler, esta parte do diálogo Ménon é o primeiro texto directamente conhecido sobre a matemática grega, datando provavelmente de 385 a.C.. Escritos mais antigos não sobreviveram, e são conhecidos apenas através de referências de terceiros.

 

MÉNON: Mas limitas-te a afirmar que não aprendemos nada, e que aquilo a que chamamos aprender não é mais do que recordar? Podes mostrar-me que assim é?

SÓCRATES: Já te disse, Ménon, que és muito malicioso. Pedes-me uma lição, quando acabo de afirmar que não há ensino, que há apenas reminiscência. Pretendes fazer-me cair imediatamente em contradição comigo mesmo.

MÉNON: De modo nenhum, Sócrates, por Zeus! Não tinha essa intenção e falei assim apenas por hábito. Se tiveres alguma maneira de me fazeres ver que é como dizes, mostra-mo.

SÓCRATES: Não é fácil, mas gostaria de tentar, por amizade a ti. Chama um dos muitos escravos que te acompanham, aquele que quiseres, e far‑te‑ei ver o que desejas.

MÉNON: De bom grado. (Dirigindo-se a um jovem escravo:) Vem cá.

SÓCRATES: É grego? Fala a nossa língua?

MÉNON: Perfeitamente; nasceu em minha casa.

SÓCRATES: Presta bem atenção e vê se ele parece recordar-se ou se parece aprender comigo.

MÉNON: Prestarei atenção.

SÓCRATES: Diz-me, rapaz, sabes que esta figura é um quadrado?

ESCRAVO: Sim.

SÓCRATES: O quadrado tem estas quatro linhas iguais?

ESCRAVO: Sim.

SÓCRATES: E estas linhas que o atravessam pelo meio são também iguais?

ESCRAVO: Sim.

SÓCRATES: Uma figura deste género pode ser maior ou mais pequena?

ESCRAVO: Certamente.

...

Extracto completo
Versão para o aluno

Retirado de HISTÓRIA DA MATEMÁTICA,
Maria Fernanda Estrada, Carlos Correia de Sá,
João Filipe Queiró, Maria do Céu Silva e Maria José Costa,
Universidade Aberta, 2000
(Pág. 342-350)

 

Este extracto, que alguns entendidos intitulam de Teoria da Reminiscência, é o ponto de partida para uma pequena incursão pela História da Matemática. A ficha de trabalho (apresentada a seguir) pode ser trabalhada com alunos do 7.º e 8.º anos de escolaridade. É uma oportunidade para os alunos descodificarem uma geometria não aritmética, cujos elementos são combinados, comparados e transformados. Aproveita-se ainda a oportunidade para um primeiro contacto com a irracionalidade de raiz de 2, demonstrada, segundo consta, pela forma mais antiga que se conhece e que é atribuída a Pitágoras. A ficha de trabalho termina com a apresentação de uma banda desenhada (retirada do livro Mais Matemáticas Assassinas, Kjartan Poskitt, Ilustrado por Philip Reeve, Publicações Europa-América), que aflora a (hipotética)  história da punição de Hippasus pela quebra do segredo dos números incomensuráveis (ver as ligações: 1 e 2, por exemplo).

Face à previsível dificuldade dos alunos em interpretar e acompanhar o diálogo, é esperado que o professor faça o devido acompanhamento dos mesmos.

 

   


Platão
(427 a.C - 347 a.C)

 

Para Platão, a missão da filosofia era descobrir o conhecimento escondido atrás do véu da opinião, das aparências, da mudança e da ilusão do mundo temporal. Nesta tarefa a matemática ocupava um lugar central, pois o conhecimento matemático era o exemplo perfeito do conhecimento independente dos sentidos, conhecimento de verdades necessárias e eternas.

No livro Meno, de Platão, Sócrates questiona um jovem escravo e leva-o a descobrir que a área do quadrado grande (v. figura) é o dobro da área de ABCD, cuja diagonal tem o comprimento do lado do quadrado grande. Como é que o jovem escravo sabe isto? Sócrates afirma que o rapaz não o aprendeu nesta vida mortal; por isso o seu conhecimento deve ser uma recordação da vida antes do nascimento.

Para Platão, este exemplo mostra que existe conhecimento verdadeiro, conhecimento do eterno. Platão argumenta que:

  1. Conhecemos verdades da geometria que não aprendemos nem através da educação nem da experiência;

  2. Este conhecimento é um exemplo das verdades imutáveis e universais que, realmente, aprendemos e reconhecemos;

  3. Assim, deve existir um reino da verdade absoluta e eterna, a fonte e a base do nosso conhecimento do bem.

Davis, Philip J. e Hersh, Reuben, A Experiência Matemática, Ciência Aberta, n.º 75, pág. 305-306

Ver "Da certeza à fiabilidade",
Anexo ao Trabalho n.º 1

 

 


     
 

O papiro de Oxyrhynchus

 


Um dos mais antigos diagramas de Euclides

Um dos diagramas mais antigos e mais completos dos Elementos de Euclides é um fragmento de um papiro encontrado entre as pilhas notáveis do entulho de Oxyrhynchus (perto da cidade actual de Behnesa, aproximadamente a 170 km do Cairo e 20 km a oeste do Nilo) em 1896-97 pela expedição célebre de B. P. Grenfell e A. S. Hunt. Presentemente, este fragmento de papiro encontra-se no Museu de Arqueologia e Antropologia da Universidade da Pensilvânia.

Este é um fragmento do que é provavelmente o maior rolo de papiro dos primeiros anos da nossa era. Foi datado pelos seus descobridores originais como sendo por volta do ano 300 d.C., mas por um exame mais recente Eric Turner data-o entre 75-125 d.C.. Oxyrhynchus nessa época era povoada por colonos Gregos, resultantes da conquista de Alexandre, O Grande, por volta de 300 a.C..

O fragmento contém a indicação, em grego, da Proposição 5 do livro II dos Elementos de Euclides. No topo do fragmento está um pequeno traço do que parece ser a indicação do Proposição II.4. Nenhuma parte da prova de uma ou de outra das proposições se encontra no fragmento.

Está manuscrito com letras maiúsculas. As palavras não estão separadas umas das outras e diversas palavras são quebradas no meio e nas extremidades da linha. Tudo isto era prática normal nos manuscritos gregos desse período. O papiro é de uma qualidade mais fraca do que o de muitos outros textos do mesmo período. O material é áspero, a escrita não é de qualidade escriba profissional e o diagrama não tem qualquer etiqueta para acompanhar o raciocínio da prova de Euclides. Por estas razões foi conjecturado (por David Fowler) que o manuscrito foi escrito por alguém para uso particular.

Retirado de One of the oldest extant diagrams from Euclid

 

Na altura não o adicionei aos Favoritos e, por isso, já não tinha qualquer ideia deste fragmento do papiro de Oxyrhynchus. Tropecei novamente nele há dois ou três dias, quando procurava já não sei o quê (é que estes últimos meses têm sido tão ricos em informação e novidade, que não há memória nem tempo para reter grande parte).

O reencontro com este registo de II.5 recordou-me o desafio feito em Trabalho 2 pelo formador José Miguel Sousa, pelo que decidi elaborar também uma actividade que explorasse o caso notável do produto da soma de dois monómios pela sua diferença, tendo por "pano de fundo" alguma História da Matemática. É, pois, essa proposta de trabalho que aqui fica, elaborada com alguma semelhança com a que então foi realizada para o quadrado da soma de dois monómios, mas agora mais ligeira do ponto de vista da justificação e demonstração geométrica.

É recomendável o uso de equipamento informático, pelo que seria desejável realizar a actividade no Laboratório de Matemática. Também aí o trabalho dos alunos pode ser acompanhado de forma próxima, mas também é possível fazer, com eficiência, os esclarecimentos indispensáveis e os pontos de situação globais e sínteses, recorrendo a um projector de vídeo.

Depois de abrir a página da ficha de trabalho, pode ir consultando as diversas sugestões à medida que estas vão sendo postas à disposição dos alunos. Para regressar novamente à página da ficha de trabalho, basta retroceder.

 

   

Oxford's Oxyrhynchus site

Egypt Exploration Society

Christian Oxyrhynchus

 

O que diz o texto?

Lê-se em Inglês da seguinte maneira (da tradução clássica de  T. L. Heath):

If a straight line be cut into equal and unequal segments, the rectangle contained by the unequal segments of the whole together with the square on the straight line between the points of section is equal to the square on the half.


Se uma linha recta for cortada em segmentos iguais e em segmentos desiguais, então o rectângulo contido pelos segmentos desiguais, juntamente com o quadrado sobre a linha recta entre os pontos de secção, é igual ao quadrado sobre a metade.

 

 

 


     
 

Quadraturas

 

Quadraturas

Outro importante problema que os geómetras gregos se puseram foi o das quadraturas de figuras planas. Seja F uma figura plana; quadrar F é construir um quadrado com área igual à de F. Nos Elementos, este assunto é tratado a partir das aplicações de áreas. Na proposição Elementos I.45, Euclides ensina (em particular) a transformar qualquer figura plana poligonal num rectângulo de igual área e com um lado arbitrariamente escolhido. Portanto, para transformar qualquer figura plana poligonal num quadrado de igual área, bastará saber transformar qualquer rectângulo num quadrado de área igual.

Euclides estuda a quadratura de rectângulos no segundo livro do seu tratado, nomeadamente nas proposições nas proposições Elementos II.5 e Elementos II.6. As demonstrações destes dois resultados assentam apenas na igualdade dos dois rectângulos complementares de qualquer decomposição na diagonal dum quadrado.

A última proposição do Livro II (II.14 - Construir um quadrado igual a uma figura rectilínea dada) ensina a obter a quadratura de qualquer figura poligonal.

 

Hipócrates de Quios e a quadratura de certas lúnulas

Já no século V a.C., a geometria das áreas relativa a figuras poligonais constituía um domínio de vastidão apreciável e a sua extensão às figuras curvilíneas se apresentava como um problema de investigação matemática. A principal questão que se punha era a de, dado um círculo, construir com régua e compasso o lado dum quadrado com área igual à desse círculo. Como hoje se sabe, tal construção é impossível apenas com aqueles instrumentos. Mas Hipócrates de Quios conseguiu quadrar, no contexto da geometria plana da régua e do compasso, certas figuras curvilíneas chamadas lúnulas.

As quadraturas de Hipócrates são conhecidas através do comentário de Simplício (século VI d.C.) à Física de Aristóteles, que contém duas importantes citações de autores mais antigos, Eudemo de Rodes (século IV a.C.) e Alexandre de Afrodísia (séculos II-III d.C.). A importância deste relato de Simplício para a história da matemática advém de ser o único texto hoje disponível, com conteúdo efectivamente matemático, anterior ao período em que Euclides compôs os seus Elementos.

Ao todo, Simplício transcreve seis quadraturas da autoria de Hipócrates, correspondendo as duas primeiras ao texto de Alexandre e as quatro restantes ao de Eudemo. As quadraturas de lúnulas atribuídas a Hipócrates assentam no resultado seguinte: a razão entre as áreas de dois círculos é a razão entre as áreas dos dois quadrados cujos lados são os diâmetros desses círculos. O texto de Simplício não fornece nenhuma indicação acerca do modo como Hipócrates teria demonstrado este teorema. A primeira prova de que há registo é a que Euclides dá da proposição Elementos XII.2; essa prova, geralmente atribuída a Eudoxo de Cnido, é apresentada no contexto da nova teoria eudoxeana das proporções, aplicável a grandezas arbitrárias, comensuráveis ou não. Mas o relato de Eudemo-Simplício faz supôr que Hipócrates de Quios ainda usa o conceito pitagórico de proporcionalidade: É que sectores circulares semelhantes são os que constituem as mesmas partes dos respectivos círculos, como por exemplo um semicírculo é semelhante a um semicírculo, e um terço de círculo é semelhante a um terço de círculo.

Os trabalhos de Hipócrates relativos às quadraturas de lúnulas (e doutras figuras planas mais complexas) devem ter reforçado a esperança dos geómetras de virem a quadrar o círculo com o único auxílio da régua e do compasso.

Retirado de HISTÓRIA DA MATEMÁTICA,
Maria Fernanda Estrada, Carlos Correia de Sá,
João Filipe Queiró, Maria do Céu Silva e Maria José Costa,
Universidade Aberta, 2000
(Pág. 269-271 e 292-295)

 

O ponto de partida para a actividade apresentada a seguir é uma referência histórica intitulada Um pouco de História, constante no manual Infinito 10, pág. 50, Areal Editores, 1997.

A actividade começa com a prova da quadratura do rectângulo, segundo Elementos II.14, de seguida são exploradas as lúnulas de Hipócrates construídas sobre os catetos de um triângulo rectângulo. Depois aflora-se a quadratura do círculo segundo o registo do papiro de Rhind, retoma-se Elementos II.14 para uma exploração da construção de um segmento de comprimento igual à raiz quadrada do comprimento de um segmento dado (incluindo a função raiz quadrada de x e a construção de uma parábola). A actividade termina com uma proposta para uma viagem sobre a evolução de Pi.

É recomendável o uso de equipamento informático, pelo que seria desejável realizar a actividade no Laboratório de Matemática. Também aí o trabalho dos alunos pode ser acompanhado de forma próxima, mas também é possível fazer, com eficiência, os esclarecimentos indispensáveis e os pontos de situação globais e sínteses, recorrendo a um projector de vídeo.

Depois de abrir a página da ficha de trabalho, pode ir consultando as diversas sugestões à medida que estas vão sendo postas à disposição dos alunos. Para regressar novamente à página da ficha de trabalho, basta retroceder.

 

 

 

Decomposição na diagonal

Os paralelogramos [AEKH] e [KGCF] são semelhantes entre si e ao paralelogramo inicial, [ABCD]; as suas diagonais [AK] e [KC] estão contidas na diagonal [AC] do paralelogramo [ABCD]. Na terminologia de Euclides, os dois paralelogramos semelhantes, obtidos numa decomposição deste tipo, dizem-se paralelogramos na diagonal e os outros dois paralelogramos da decomposição ([EBGK] e [HKFD]) dizem-se paralelogramos complementares. Uma decomposição deste tipo é costume chamar-se uma decomposição na diagonal.

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Dado que qualquer diagonal dum paralelogramo o divide em dois triângulos congruentes (e, portanto, com a mesma área), é muito fácil estabelecer o seguite teorema:

Elementos I.43:
Em qualquer paralelogramo, os complementares dos paralelogramos na diagonal são iguais entre si.

 

 

 



Hipócrates de Quios
(c 470 a.C - 410 a.C)

 

Lúnula

Duas circunferências complanares, com dois pontos em comum, A e B, dividem o plano em quatro regiões. Uma dessas regiões chama-se lúnula, se estiver contida nalgum dos dois semiplanos determinados pela recta AB; portanto, trata-se duma figura plana delimitada por dois arcos de circunferência com a concavidade no mesmo sentido.

As regiões a azul são lúnulas

 

 
     


Duplicação do cubo

 

Da duplicação do quadrado à redução de Hipócrates

 
 

Hipócrates e a inserção de dois meios proporcionais

A mais importante fonte de informação histórica acerca das tentativas para duplicar o cubo encontra-se num comentário a três obras de Arquimedes, escrito por Eutócio de Áscalon. Em particular, o comentário ao livro II do tratado Da Esfera e do Cilindro tem uma especial importância histórica, por Eutócio apresentar uma resenha das várias soluções do problema da duplicação do cubo descobertas pelos matemáticos que o precederam. Tal como acontece com a trissecção do ângulo e a quadratura do círculo, hoje sabe-se que a duplicação do cubo não pode ser levada a cabo com o exclusivo recurso à régua e ao compasso. (Teoria de Galois, duplicação do cubo)

Segundo Eutócio, Hipócrates de Quios terá observado que a resolução do problema da duplicação dum dado cubo é equivalente à resolução do problema da inserção de dois meios proporcionais entre o segmento de recta que é aresta do cubo e o segmento de recta duplo desse. Tratou-se duma descoberta muito importante, porque reduziu o problema inicial a um outro, abrindo deste modo uma nova frente de investigação que haveria de se revelar frutífera.

A nova forma que Hipócrates deu ao problema da duplicação do cubo tem certas analogias com a questão da duplicação do quadrado que, por esta razão, lhe pode ter servido de inspiração. O problema da duplicação do quadrado consiste na construção (do lado) dum quadrado de área dupla da dum quadrado dado. O diálogo Menon, de Platão, escrito nos princípios do século IV a.C., toma patente que este problema não apresentava dificuldades para os gregos cultos do tempo: a diagonal dum quadrado é o lado do quadrado de área dupla.

Mas a questão da duplicação do quadrado pode ser abordada de outro modo. Justapondo dois exemplares do quadrado dado, obtém-se um rectângulo em que um dos lados é duplo do outro. O problema em causa é a quadratura deste rectângulo, o que se resolve construindo o meio proporcional entre os respectivos lados: se o lado do quadrado inicialmente dado for designado por l, o rectângulo terá de lados l e 2l e área igual à dum quadrado cujo lado x satisfaz a relação

Tal deve-se a que a razão entre as áreas dos quadrados de lados l e x é

e, portanto, o quadrado de lado x tem área dupla da do quadrado de lado l.


A duplicação dum quadrado equivale à quadratura do rectângulo
obtido por justaposição de dois exemplares do quadrado dado.


Embora não haja nenhum testemunho directo desse facto, alguns historiadores acreditam que Hipócrates começou por reflectir na questão da duplicação do quadrado e, de seguida, procurou generalizá-la. Assim, terá observado que, para duplicar um cubo de aresta a, bastaria encontrar dois segmentos de recta x e y satisfazendo as relações

Com efeito, a razão entre os volumes dos cubos de arestas a e x é:

Portanto, o cubo de aresta x tem volume duplo do do cubo de aresta a.

A partir de Hipócrates, a atenção dos geómetras que pretendiam resolver o problema da duplicação do cubo voltou-se também para a busca de dois meios proporcionais entre dois segmentos de recta (com particular ênfase no caso de um destes ser duplo do outro). No século IV a.C., esta busca estaria na origem da descoberta (ou, pelo menos, do estudo atento) das secções cónicas.

Retirado de HISTÓRIA DA MATEMÁTICA,
Maria Fernanda Estrada, Carlos Correia de Sá,
João Filipe Queiró, Maria do Céu Silva e Maria José Costa,
Universidade Aberta, 2000
(Pág. 309-311)

 

Este extracto dum texto do Dr. Carlos Sá, constitui o tema da ficha de trabalho apresentada a seguir. É uma ficha de trabalho que apresenta pouca dificuldade e é algo repetitiva, contudo julgo que é interessante porquanto permite dar a conhecer aos alunos como há mais de dois mil anos um grande matemático reduz o problema da duplicação do cubo a um outro - um problema de geometria plana - de dificuldade não propriamente menor, mas que possibilitou o desenvolvimento de novas técnicas geométricas. Dá também a conhecer a solução proposta por Arquitas que, além de ser uma solução de extrema beleza geométrica,  é uma construção corajosa a três dimensões.

Depois de abrir a página da ficha de trabalho, pode ir consultando as diversas sugestões à medida que estas vão sendo postas à disposição dos alunos. Para regressar novamente à página da ficha de trabalho, basta retroceder.

 

   


Arquimedes
(287 a.C. - 212 a.C.)


Página integralmente
dedicada a Arquimedes

 

 

Glaucus. Son of King Minos of Crete. So vast was Minos's palace of Knossos that when Glaucus turned up missing one day the king had to send for a visionary to locate him. The seer, Polyeidus, found the boy smothered in a jar of honey. Minos insisted that he restore Glaucus to life. This the seer accomplished, only to discover that instead of a reward Minos insisted he teach Glaucus all his mystical skills.

Duplicação do cubo

A História do Problema
(José Miguel Sousa)

A Redução de Hipócrates

(José Miguel Sousa)

 

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O esquadro de Platão

 

 

O esquadro de Platão

Eutócio de Áscalon atribui a Platão uma solução de índole mecânica do problema da inserção de dois meios proporcionais entre quaisquer dois segmentos de recta e, portanto, também do problema da duplicação do cubo. É duvidoso que tenha sido Platão o proponente desta solução do problema; mais provável é que ela seja da autoria de algum geómetra da Academia (Heath, 1908).

O esquadro de Platão seria um instrumento constituído por três réguas, duas delas paralelas entre si e uma terceira perpendicular às anteriores, estando esta última fixada a uma das primeiras, mas permitindo a deslocação da outra numa calha. Portanto, duas das réguas seriam fixas, enquanto que a outra deslizaria paralelamente a si mesma.

Suponha-se que se pretendem construir dois meios proporcionais entre dois segmentos de recta dados, a e b. Consideram-se duas rectas perpendiculares r e s, intersectando-se num ponto O, e marcam-se dois pontos A e B sobre r e s, respectivamente, de tal modo que

 OA = a e OB = b.

De seguida, tenta ajustar-se o esquadro de Platão à figura, de modo a que as duas réguas paralelas passem por A e B e os pontos em que elas encontram a outra régua, X e Y, estejam sobre as rectas s e r, respectivamente.

Triângulos semelhantes obtidos com o esquadro de Platão.

Deste modo, obtêm-se três triângulos, AOX, XOY e YOB, semelhantes entre si. Portanto,

Portanto, os segmentos de recta OX e OY são os dois meios proporcionais entre AO e OB. Em particular, se OB for o dobro de AO então OX é a aresta do cubo cujo volume é o dobro do volume do cubo de aresta AO.

Retirado de HISTÓRIA DA MATEMÁTICA,
Maria Fernanda Estrada, Carlos Correia de Sá,
João Filipe Queiró, Maria do Céu Silva e Maria José Costa,
Universidade Aberta, 2000
(Pág. 311-312)

 

A revista Educação e Matemática tem vindo a publicar algumas actividades intituladas "Materiais para a aula de Matemática", numa da secções mais antigas da revista. Para tornar essas fichas mais acessíveis, a Redacção da Educação e Matemática decidiu organizar um livro e um CD com as fichas, e respectivos comentários, publicadas até ao último número de 2000. É a actividade "Cálculo de raízes cúbicas", publicada na revista n.º 27 (3.º trimestre de 1993) que constitui a base da ficha de trabalho que se propõe nesta secção. O comentário a essa actividade refere: «Esta ficha foi retirada do Livro Histoire des Mathématiques pour les Collèges, publicado por IREM Université Paris 7, Editions CEDIC, 1980. Pode ser trabalhada com alunos do 3.º ciclo, a propósito de raiz cúbica e de número irracional, fazendo também apelo a conhecimentos geométricos, e integrando elementos da história da matemática». Relativamente ao tópico de história da matemática abordado nessa ficha, descobri outra referência na página 5 do documento Relations métriques et trigonométriques dans le triangle. Aplications., de Dany-Jack Mercier.

Porque o dispositivo mecânico referido nessa actividade não é mais do que o instrumento conhecido por esquadro de Platão, entendi que poderia ser interessante alargar os elementos da história da matemática integrados na mesma. Assim, a ficha de trabalho aqui proposta começa com uma introdução constituída pelo texto do Dr. Carlos Sá, acima transcrito e relativo ao Esquadro de Platão. De seguida é apresentada a actividade referida, terminado com duas questões que pretendem relacionar os diversos elementos da história da matemática aflorados nos dois textos considerados.

Depois de abrir a página da ficha de trabalho, pode ir consultando as diversas sugestões à medida que estas vão sendo postas à disposição dos alunos. Para regressar novamente à página da ficha de trabalho, basta retroceder.

 

 

 

 

A solução atribuída a Platão
(José Miguel Sousa)

 

Esquadro de Platão
(versão de Dürer)

Rettangolo di Platone
(versione Dürer)

 

 

Cálculo de raízes cúbicas e o esquadro de Platão

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O segmento [OA] tem comprimento 1.
Pode ser ajustado, arrastando o ponto A. O ponto B permite definir o segmento [OB], que terá o comprimento do número do qual se pretende a raiz cúbica. Arrastando o ponto D, tenta-se fazer coincidir o ponto B' com o ponto B. Nessa posição, o segmento [OD] tem comprimento igual à raiz cúbica do comprimento do segmento [OB].

 

Organizado por Adelina Precatado e Henrique Guimarães.
Publicado pela Associação de Professores de Matemática.

APM

 

 
     
 

Menecmo e as secções cónicas

 
 
Menecmo e os cones de revolução

Não é de estranhar que o problema da duplicação do cubo tenha levado à descoberta das secções cónicas. De facto, como Hipócrates tinha mostrado, esse problema é equivalente ao de, dado um cubo de aresta a, procurar dois segmentos de recta x e y verificando a proporcionalidade

Para isso, basta que se verifiquem duas das três igualdades seguintes:

Ora, estas são as equações de duas parábolas e duma hipérbole. Portanto, os segmentos procurados são determinados pela intersecção de quaisquer duas destas três cónicas. Note-se, contudo, que este modo de encarar a questão, associando uma equação a uma curva, é inteiramente estranho à geometria antiga; com ele, apenas se pretende fazer notar que as duas questões matemáticas estão intimamente ligadas e que, portanto, as reflexões sobre uma delas podem ter conduzido, de maneira natural, à tomada de consciência acerca da outra.

Menecmo (século IV a.C.) é o matemático mais antigo que os documentos associam com as secções planas do cone. De acordo com o resumo histórico de Proclo, tratar-se-ia dum irmão de Dinóstrato; é provável que ambos tenham estudado na Academia de Platão.

No seu comentário ao tratado Da Esfera e do Cilindro, de Arquimedes, Eutócio reproduz uma carta (que hoje se sabe não ser autêntica) de Eratóstenes, ao rei Ptolomeu III do Egipto, em que o autor teria afirmado:

Não procures conseguir coisas difíceis de executar por meio dos cilindros de Arquitas, nem pela tríade de secções cónicas de Menecmo, nem descrevê-las por alguma espécie de linhas curvas do divino Eudoxo; pois, por meio destas placas, construirás milhares de médias, começando por um pequeno número de base.

As «coisas difíceis de executar» são os dois meios proporcionais entre dois segmentos de recta, que Arquitas de Tarento (séculos V-IV a.C.) teria encontrado por intermédio da intersecção de três superfícies. A solução proposta por Eudoxo de Cnido é hoje desconhecida. A tríade de secções cónicas de Menecmo é constituída pelos três tipos de curvas que se podem obter por intersecção dum cone de base circular com um plano, hoje conhecidas pelos nomes de elipses, parábolas e hipérboles.

Retirado de HISTÓRIA DA MATEMÁTICA,
Maria Fernanda Estrada, Carlos Correia de Sá,
João Filipe Queiró, Maria do Céu Silva e Maria José Costa,
Universidade Aberta, 2000
(Pág. 313-314)

 

Na página 255 do manual Infinito 10, Areal Editores, 1997, há uma referência histórica relativa ao uso das secções cónicas na resolução de problemas, tais como o da duplicação do cubo. É esta referência o ponto de partida para uma ficha de trabalho que pretende explorar a parábola como secção cónica, como lugar geométrico e definida por uma expressão analítica.

Além do uso da calculadora gráfica e da manipulação de expressões algébricas, pretende-se que os alunos interpretem e analisem diversos elementos geométricos dinâmicos e concluam da conexão entre a quadratura de um rectângulo e a existência de uma parábola como lugar geométrico.

Depois de abrir a página da ficha de trabalho, pode ir consultando as diversas sugestões à medida que estas vão sendo postas à disposição dos alunos. Para regressar novamente à página da ficha de trabalho, basta retroceder.

 

 

 

Menecmo
(c 380 a.C. - 320 a.C.)

 

A solução de Menecmo
(José Miguel Sousa)

 

Secções Cónicas
de Menecmo

Cone oxigonal (acutângulo)


Cone ortogonal (rectângulo)


Cone ambligonal (obtusângulo)

 

 

 


     



Actualizada em
 21-12-2003